{"id":733,"date":"2021-01-10T14:45:03","date_gmt":"2021-01-10T14:45:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.fotoplus.com\/duas\/?p=733"},"modified":"2021-01-15T20:45:45","modified_gmt":"2021-01-15T20:45:45","slug":"o-limiar-interrompido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/?p=733","title":{"rendered":"O limiar interrompido"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"has-dark-brown-color has-text-color wp-block-heading\">O limiar interrompido:<br>a presen\u00e7a de autores negros na fotografia brasileira antes da d\u00e9cada de 1950<br><\/h3>\n\n\n\n<p><br>FotoPlus #54 \u2013 Janeiro\/Mar\u00e7o 2021<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/multidao-64-100pp-600x600-1.gif\" alt=\"Jos\u00e9 Ezelino - Caic\u00f3\/RN - d\u00e9cada de 1920-1930\" class=\"wp-image-731\" width=\"752\" height=\"752\"\/><figcaption>Anima\u00e7\u00e3o sobre foto de <strong>Jos\u00e9 Ezelino da Cost<\/strong>a (1889-1952), Caic\u00f3 (RN), d\u00e9cada de 1920-1930 (atribu\u00edda). Veja: <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/substantivoplural.com.br\/do-mes-de-jose-ezelino\/?fbclid=IwAR3z3kh_V5HumfXfmy7oIKG-dS6MXaqow2CyhYKQeg96hrAKKnLU-2xkwqY\" target=\"_blank\">artigo  de origem<\/a> \/ Veja <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/substantivoplural.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/DEFENSORES-CAIC%C3%932JEC-768x595.jpg\" target=\"_blank\">imagem original<\/a>.<br><em>Fonte<\/em>:<strong> Substantivo Plural<\/strong>, RN, site, 24.10.2016, Fotografia<br><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\"><br><br>Notas a partir do livro <strong><em>Quando a pele incendeia a mem\u00f3ria<\/em><\/strong>:<br> nasce um fot\u00f3grafo no sert\u00e3o do s\u00e9culo XIX,<br>de Angela Almeida (EDUFRN, 2017, 145p.)<br>&gt;&gt; <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/repositorio.ufrn.br\/handle\/123456789\/27280\" target=\"_blank\">download<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Apenas ao final da d\u00e9cada de 1980 com alguma const\u00e2ncia, mas certamente num processo lento, a presen\u00e7a do negro surge como tema, como urg\u00eancia, na fotografia brasileira. N\u00e3o que n\u00e3o estivesse l\u00e1, no registro documental como &#8220;figura secund\u00e1ria&#8221; da cena brasileira do Oitocento, como marca do patrim\u00f4nio escravocrata, muitas vezes camuflado sob imagens de afeto nos retratos de amas e filhos de seus propriet\u00e1rios.<br><br>Uma crescente bibliografia nessas aproxima\u00e7\u00f5es surge como fluxo cont\u00ednuo na \u00faltima d\u00e9cada, n\u00e3o mais concentrada no mercado editorial, mas expressivamente gerada e difusa no segmento acad\u00eamico. N\u00e3o cabe aqui caracterizar longamente essas abordagens, mas complement\u00e1-las com outras a\u00e7\u00f5es, por vezes poderosas e mais vis\u00edveis. &nbsp;De in\u00edcio, \u00e9 marcada pelo estudos da iconografia ligada ao cotidiano de uma sociedade escravocrata, o que permitiu&nbsp; numa primeira fase identificar fot\u00f3grafos, autores e cole\u00e7\u00f5es, por vezes dispersas. Associado, surgem tamb\u00e9m estudos voltados a modos de representa\u00e7\u00e3o das comunidades negras, os que muito tardiamente p\u00f5em em movimento quest\u00f5es relativas a mecanismos de poder e controle sobre a produ\u00e7\u00e3o dessas representa\u00e7\u00f5es e autorrepresenta\u00e7\u00f5es.<br><br>Mais recentemente, acompanhada por abordagens similares no campo da produ\u00e7\u00e3o visual, nas artes visuais e na vertente documental, torna-se tra\u00e7o distintivo a quest\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de autores negros. Em especial, aqueles que t\u00eam como campos de a\u00e7\u00e3o as culturas negras no Brasil nas religi\u00f5es, nas manifesta\u00e7\u00f5es culturais &#8230;, com tamb\u00e9m os autores, enfaticamente nas artes visuais, que discutem frontalmente a heran\u00e7a diasp\u00f3rica, os modos e formas de ser negro e suas visibilidades numa sociedade de ra\u00edzes escravocratas ainda presentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa aproxima\u00e7\u00e3o, no reconhecimento desses autores, desses produtores de imagens, dos repert\u00f3rios e din\u00e2micas visuais postas em movimento, uma quest\u00e3o permanece em aberto e nunca expressa: <strong>a aus\u00eancia de fot\u00f3grafos negros registrados antes da d\u00e9cada de 1950<\/strong>. Em qualquer segmento do campo fotogr\u00e1fico, das pr\u00e1ticas amadora a profissional, em qualquer segmento de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de imagem \u2013 como assistentes, auxiliares de est\u00fadios, retocadores, agentes, comerciantes de produtos&#8230; \u2013 nenhum nome pode ser identificado.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o, quase sempre tomada mais como fato consumado do que como um aspecto tema para uma hist\u00f3ria-problema, nunca avan\u00e7ou em busca de uma centralidade. Seria plaus\u00edvel propor a exist\u00eancia de um limiar simb\u00f3lico ao redor de <strong>Walter Firmo<\/strong> (1937) e <strong>Janu\u00e1rio Garcia<\/strong> (1943), que parece tra\u00e7ar uma muralha intranspon\u00edvel posicionada em algum momento da d\u00e9cada de 1950.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma <strong>hist\u00f3ria-problema<\/strong> \u00e9 a demanda nunca colocada. Seria essa a grande e derradeira express\u00e3o, a heran\u00e7a, da exclus\u00e3o escravagista? Nunca, al\u00e9m de meras conjunturas, notas sem maior desenvolvimento identificaram a presen\u00e7a da m\u00e3o de obra escravizada ou de negros livres nos est\u00fadios do Dezenove. Nem registraram essa presen\u00e7a ao longo de quase 60 anos, s\u00e9culo XX adentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Campo imaculado esse, ocupado por fot\u00f3grafos quase em sua totalidade europeus,&nbsp; todos eles avessos aos modos de produ\u00e7\u00e3o local !? Ainda assim, muitos profissionais serviram-se do tem\u00e1rio local para a produ\u00e7\u00e3o regular de registros de tipos humanos como fizeram <strong>Alberto Henschel<\/strong> (1827-1882), empreendedor com est\u00fadios em S\u00e3o Paulo, Rio e Recife, ou <strong>Christiano Junior<\/strong> (1832-1902), fot\u00f3grafo portugu\u00eas ativo no Brasil e, com maior sucesso comercial aparentemente, na Argentina.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre Henschel \u00e9 intensa a produ\u00e7\u00e3o recente de obras visuais a partir dessas imagens, reapropria\u00e7\u00f5es, ressignifica\u00e7\u00f5es, como realizado pelo artista visual <strong>Fernando Banzi <\/strong>(s\u00e9rie <em>Tipos,<\/em> 2018; <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.fernandobanzi.com\/tipos\" target=\"_blank\">veja<\/a>), ou pela pesquisadora e artista visual, doutoranda da USP, <strong>Monica Cardim<\/strong>, premiada&nbsp; em 2020 pelo v\u00eddeo <em>Retratos transatl\u00e2nticos: circula\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00f5es de Afrodi\u00e1spora brasileira na fotografia de Alberto Henschel <\/em>(3&#8242;; <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6can1JfC3K4\" target=\"_blank\">veja<\/a><span style=\"padding: 0; margin: 0; margin-left: 5px;\"><\/span>). Sobre Christiano Junior, veja a obra pioneira&nbsp; <em>Escravos brasileiros do s\u00e9culo XIX na fotografia de Christiano Jr<\/em> (1988, Ex-Libris), organizada por Paulo Cesar de Azevedo e Maur\u00edcio Lissovsky.<br><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio lembrar no recorte deste ensaio, em contraponto ao \u00e1rido balan\u00e7o inicial, das possibilidades abertas em segmento espec\u00edfico da produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica recente que se dedica ao estudo da circula\u00e7\u00e3o de imagens e da constitui\u00e7\u00e3o de arquivos pessoais em que fotos das mais diversas origens \u2013 realizadas em est\u00fadios ou na pr\u00e1tica amadora, recebidas como lembran\u00e7as, como por quase um s\u00e9culo se faria com <em>cartes-de-visite  <\/em>ou compradas como cart\u00f5es-postais &#8211; <em> <\/em>convivem com objetos os mais diversos: cartas, bilhetes, fragmentos articulados em uma matriz de rela\u00e7\u00f5es de afeto, mem\u00f3ria e investimentos simb\u00f3licos outros.<br><br>Mencione-se como exemplo, no campo da antropologia social, o trabalho desenvolvido por <strong>Alexandre Ara\u00fajo Bispo<\/strong>, no doutorado apresentado em 2019 (USP): <em>Percursos da mem\u00f3ria e da integra\u00e7\u00e3o social, o arquivo pessoal de Nery e Alice Rezende, mulheres negras em S\u00e3o Paulo &#8211; 1948-1967<\/em>. Bispo aborda, como resume: o \u201carquivo pessoal de Nery Rezende (1930-2012), mulher negra das camadas populares, de quem tra\u00e7o um percurso biogr\u00e1fico, que deixou um acervo documental de 18 mil itens, entre impressos, manuscritos, imagens fotogr\u00e1ficas e objetos tridimensionais acerca de si mesma, de sua fam\u00edlia, de seus amigos, de suas rela\u00e7\u00f5es de trabalho e lazer.\u201d (<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/8\/8134\/tde-18062019-132839\/\" target=\"_blank\">veja<\/a>). O projeto \u00e9 um desdobramento da pesquisa anterior no mestrado: <em>Mem\u00f3rias fotogr\u00e1ficas: mem\u00f3ria familiar, sociabilidade e transforma\u00e7\u00f5es urbanas em S\u00e3o Paulo (1920-1960), <\/em>tamb\u00e9m desenvolvida na USP (2012) (<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/8\/8134\/tde-01032013-121248\/\" target=\"_blank\">veja<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br><strong>Na mira: Jeanne Moutoussamy-Ashe<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Observar outros contextos, outras experi\u00eancias, pode ser tomado como estudo em dupla perspectiva. Primeiro, como reconhecimento de pontos de contatos&nbsp; ou aspectos em conflitos sobre experi\u00eancias de reconhecimento e inser\u00e7\u00e3o de comunidades negras; segundo, para entender, em circunst\u00e2ncias distintas, o papel das mem\u00f3rias individuais e coletivas sobre a produ\u00e7\u00e3o de suas hist\u00f3rias, suas historiografias e as disputas em quest\u00e3o, em desafios muito pr\u00f3ximos que podem permitir identificar novas perspectivas de a\u00e7\u00e3o a considerar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jeanne<\/strong> <strong>Moutoussamy <\/strong>(1951)<strong>, <\/strong>fot\u00f3grafa negra, desenvolve nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980 uma carreira como fotojornalista. Nascida em Chicago, \u00e9 um dos tr\u00eas filhos de Elizabeth Hunt, designer de interiores,&nbsp; e de John Moutoussamy, arquiteto (1922-1995). John \u00e9 o&nbsp; primeiro profissional afro-americano a projetar no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970 um grande edif\u00edcio no centro de Chicago para a sede dos escrit\u00f3rios centrais da Johnson Publishing Company.<\/p>\n\n\n\n<p>Oportuno lembrar aqui, numa interrup\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria, de um elo casual, mas revelador, que une a fotografia entre estes dois pa\u00edses na perspectiva de participa\u00e7\u00e3o de autores negros. Entre 1969 e 1971, a Kodak, um dos principais grupos da ind\u00fastria fotogr\u00e1fica ao longo do s\u00e9culo XX, promove expans\u00e3o de suas instala\u00e7\u00f5es em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, no interior paulista. O grande edif\u00edcio industrial, ainda remanescente, h\u00e1 muito desmobilizado pela empresa, foi desenvolvido por <strong>Louise Brown <\/strong>(1918-1999), arquiteta negra. Nascida no Kansas, Louise \u00e9 uma das pioneiras no campo da arquitetura industrial nos dois pa\u00edses, mulher e negra, num campo ent\u00e3o e por d\u00e9cadas marcado por um perfil de profissionais homens e brancos. Considerada como a segunda mulher afro-americana a receber um t\u00edtulo em arquitetura nos EUA em 1949, Louise desenvolve uma carreira impressionante no segmento corporativo. Em 1953&nbsp; passa a atuar no Brasil, em S\u00e3o Paulo. Tem como clientes grandes empresas como Ford Motor, Pfizer e Kodak, al\u00e9m de desenvolver projetos de resid\u00eancias para a classe m\u00e9dia alta. Um perfil profissional, por Anat Falbel, integra o projeto <em>Pioneering woman of american Architecture<\/em>, dispon\u00edvel online,&nbsp; desenvolvido pela Beverly Willis Architecture Foundation (<a href=\"https:\/\/pioneeringwomen.bwaf.org\/georgia-louise-harris-brown\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">veja<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left has-small-font-size\"><br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/moutoussamy-ashe-capa-viewfinders-p\u00e1gina-de-rosto-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-751\" width=\"490\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/moutoussamy-ashe-capa-viewfinders-p\u00e1gina-de-rosto-1.jpg 727w, https:\/\/fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/moutoussamy-ashe-capa-viewfinders-p\u00e1gina-de-rosto-1-237x300.jpg 237w\" sizes=\"auto, (max-width: 490px) 85vw, 490px\" \/><figcaption>P\u00e1gina de rosto do livro <em><strong>Viewfinders: black women photographers<\/strong> (1986), de Jeanne Moutoussamy-Ashe (1951)<\/em>. Clique para ler no <a href=\"https:\/\/archive.org\/details\/viewfindersblack00mout\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Internet Archive<\/a><br><em>.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Voltemos a Jeanne Moutoussamy<\/strong>. Graduada em artes visuais em 1975, dedica-se ainda a um ano de pesquisa na \u00c1frica Ocidental como parte dos requisitos de forma\u00e7\u00e3o. Atua a partir da\u00ed como fotojornalista, em especial na cobertura esportiva. Acaba assim por conhecer o tenista profissional Arthur Ashe, esportista com tr\u00eas grandes t\u00edtulos individuais no Grand Slam, com quem se casaria.<br><br>Jeanne lan\u00e7a em 1986, sem experi\u00eancia anterior nesse campo, o livro <strong><em>Viewfinders: black women photographers <\/em><\/strong>(Dodd Mead &amp; Co, 201p.)<em>. <\/em>Num duplo registro, a publica\u00e7\u00e3o acaba por constituir uma contribui\u00e7\u00e3o original para a historiografia da fotografia nos EUA ao abordar as quest\u00f5es de ra\u00e7a e g\u00eanero.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A edi\u00e7\u00e3o precede refer\u00eancias mais conhecidas nessas perspectivas. No primeiro caso, a produ\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica realizada nos anos seguintes por <strong>Deborah Willis<\/strong> (1948), que ganhar\u00e1 maior visibilidade com a obra <strong><em>Reflections in black<\/em><\/strong><em>:<\/em> a history of black photographers, 1840 to the present (W. W. Norton, 2000, reimpress\u00e3o em 2002) (veja as edi\u00e7\u00f5es <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.archive.org\/details\/reflectionsinbla00will\" target=\"_blank\">2000<\/a>, <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.archive.org\/details\/reflectionsinbla00debo\" target=\"_blank\">2002<\/a>). No segundo caso, sobre a presen\u00e7a da mulher da fotografia, antecede, nesse recorte de ra\u00e7a, autores como Naomi Rosenblum (1925), sobre quem comentaremos adiante.<br><br>S\u00e3o, certamente, obras de perfis distantes, de autores com forma\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o e agendas distintas, como tamb\u00e9m pesquisas realizadas em condi\u00e7\u00f5es em parte diferenciadas. Jeanne surpreende, em especial para leitores, como n\u00f3s, em &nbsp;contexto distinto, pelo resultado da pesquisa. Articula-se em <em>Viewfinders <\/em>um panorama surpreendente por resgatar autores, fot\u00f3grafas negras, cujas pr\u00e1ticas retrocedem ao final do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p>Jeanne tinha, por\u00e9m, de onde partir. N\u00e3o apenas porque a pesquisa historiogr\u00e1fica nos EUA nesse segmento, ainda que pioneira, apresentasse ocorr\u00eancias em contraste flagrante com o quadro brasileiro. Revela-se ent\u00e3o como o percurso hist\u00f3rico das comunidades afro-americanas e suas imagens era mais complexo. Entre outros fatores em a\u00e7\u00e3o, diversas institui\u00e7\u00f5es organizavam h\u00e1 d\u00e9cadas acervos documentais e visuais os mais diversos sobre essas comunidades, aspecto chave para os projetos de recupera\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise que surgem nos anos 1970 e 1980.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1971, por exemplo,&nbsp; o James Van Der Zee Institute organiza em Andover, na costa leste, a exposi\u00e7\u00e3o <em>The black photographer (1908-1970): a survey<\/em> (cat\u00e1logo <strong><a href=\"https:\/\/archive.org\/details\/blackphotographe0000jame\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">online<\/a><\/strong>). N\u00e3o custa lembrar: o nome da institui\u00e7\u00e3o \u00e9 refer\u00eancia direta ao fot\u00f3grafo negro, Van Der Zee (1886-1983), que registrou n\u00e3o s\u00f3 o cotidiano das comunidades locais em Nova York, mas o <em>Harlem Renaissance<\/em>, movimento cultural de resgate, que marca a d\u00e9cada de 1920. <em>The black photographers<\/em>, como o cat\u00e1logo revela, \u00e9 antes de tudo uma a\u00e7\u00e3o que estrutura um repert\u00f3rio visual em busca de reconhecimento de autores e pr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada seguinte, em 1983, o Rhode Island School of Design, em Providente, organiza a mostra <em>A century of black photographers, 1840-1960<\/em>, com curadoria de Valencia Hollins Coar. Embora o cat\u00e1logo n\u00e3o esteja dispon\u00edvel, a leitura da <em>Checklist <\/em>permite conhecer a rela\u00e7\u00e3o completa &nbsp;de obras, com 150 itens, bem como os locais de itiner\u00e2ncia da exposi\u00e7\u00e3o por mais de seis cidades, como Nova York e Houston, entre 1983 e 1984.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse caldo inicial come\u00e7a a ganhar forma o campo de estudos sobre cultura visual no recorte das comunidades afro-americanas. Deborah Willis, em 1985, lan\u00e7a a obra de refer\u00eancia \u2013 <em>Black photographers 1840-1940<\/em>: a bio-bibliography (Garland), complementada quatro anos depois por <em>An Illustrated bio-bibliography of black photographers, 1940-1988, <\/em>pela mesma editora.<\/p>\n\n\n\n<p>O fluxo editorial ganha velocidade na d\u00e9cada seguinte. Surgem obras de autores, tomados como referenciais nos anos seguintes, a exemplo de bell hooks (1952), que lan\u00e7a em 1992 \u2013 <em>Black looks: race and representations <\/em>(South End Presse)<em>. <\/em>Em especial , surge ent\u00e3o uma produ\u00e7\u00e3o de autores acad\u00eamicos, com recorr\u00eancia do formato da antologia, com temas e debates marcado pelo feminismo negro como uma das conflu\u00eancias dos estudos de g\u00eanero e ra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jeane Moutoussamy <\/strong>deixa de lado, em <em>Viewfinders, <\/em>a impressionante ocorr\u00eancia de fot\u00f3grafos homens negros atuantes desde o primeiro momento na d\u00e9cada de 1840. Desde James Lion, que abre um est\u00fadio de daguerreotipia em mar\u00e7o de 1840 em Nova Orleans e organiza no mesmo ano uma exibi\u00e7\u00e3o p\u00fablica de imagens, primeiro registro documentado de evento do g\u00eanero nos EUA. Franc\u00eas de origem, Lion migrara anos antes para os EUA, dedicando-se tamb\u00e9m \u00e0 pintura e litografia, campos em que se concentra a partir de 1845. A ele, somam-se nomes como Augustus Washington, James P. Ball, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>O que importa destacar aqui s\u00e3o as fontes de pesquisa utilizadas &nbsp;e o tratamento dado pela autora que permitiram estabelecer antes de tudo um panorama denso sobre o s\u00e9culo XIX &nbsp;ao inv\u00e9s de um repert\u00f3rio de presen\u00e7as individuais.&nbsp; O texto revela uma abordagem precisa e atenta \u00e0 cultura e inser\u00e7\u00e3o afro-americana. Jeanne faz uso brilhante de dados estat\u00edsticos a partir dos censos norte-americanos, que surpreendentemente reuniam informa\u00e7\u00f5es sobre profiss\u00f5es e origem racial, complementados quando necess\u00e1rio por uso de diret\u00f3rios municipais. Surge assim \u2013 como &nbsp;tra\u00e7o indicativo de formas de segrega\u00e7\u00e3o diferenciadas entre culturas &#8211; esses marcadores de origem presentes nas estat\u00edsticas demogr\u00e1ficas.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro \u00e9 marcado, nesse segmento inicial, pela an\u00e1lise densa e renovada de dados. Os dois ter\u00e7os restantes da obra s\u00e3o formados por portf\u00f3lio individuais, em si heterog\u00eaneos frente \u00e0 disponibilidade de imagens. Jeanne utiliza ent\u00e3o, como estrat\u00e9gia para compensar o reduzido conjunto de registros visuais para os fot\u00f3grafos das d\u00e9cadas iniciais, an\u00fancios e outros documentos iconogr\u00e1ficos.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Os recenseamentos n\u00e3o registram, contudo, &nbsp;a mulher como for\u00e7a de trabalho antes de 1870. E, apenas em 1890, passam a indicar mulheres negras no mercado de trabalho, aspectos que limitam certamente o conjunto de informa\u00e7\u00f5es. Ainda assim \u00e9 poss\u00edvel tra\u00e7ar um quadro espantoso pelo crescimento em n\u00famero, e, lentamente, em diversidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1850 s\u00e3o registrados 892 daguerreotipistas homens, concentrados na regi\u00e3o nordeste do pa\u00eds: &nbsp;240 no estado de Nova York, 153 na Pensilv\u00e2nia e 53 em Connecticut. Outras fontes, por\u00e9m, &nbsp;j\u00e1 indicam neste \u00faltimo estado a presen\u00e7a de um fot\u00f3grafo negro.<\/p>\n\n\n\n<p>O uso de fontes como diret\u00f3rios municipais permite expandir assim o levantamento. Em 1866, registra-se a primeira profissional negra, em Houston \u2013 <strong>Mary E. Warren<\/strong> &#8211; \u201cphotograph printer\u201d, estabelecida na regi\u00e3o central, junto a outros estabelecimentos fotogr\u00e1ficos. Surge assim um aspecto fundamental: qual o grau de conex\u00e3o com outros profissionais brancos ou n\u00e3o, quais as clientelas e estrat\u00e9gias de neg\u00f3cio poss\u00edveis para esses profissionais negros?<br><br>Jeanne faz uso tamb\u00e9m de an\u00fancios em jornais para identificar profiss\u00f5es exercidas por homens e mulheres negros. Destaca a relev\u00e2ncia de uma imprensa negra (como vetor de comunica\u00e7\u00e3o dirigida e como fonte documental agora), formada por mais de 20 t\u00edtulos circulados entre 1832 e 1852, que atingir\u00e1 em 1886 um total de 146 publica\u00e7\u00f5es. Os primeiros an\u00fancios de fot\u00f3grafos profissionais surgem nesse contexto em 1860. A autora sup\u00f5e que o recurso a esses an\u00fancios possa ser motivado pelo crescimento da popula\u00e7\u00e3o negra urbana entre 1860 e 1900, expandido o universo de leitores. As cont\u00ednuas migra\u00e7\u00f5es de membros das comunidades negras dos estados do sul para o norte, que permaneceram em graus distintos at\u00e9 meados do s\u00e9culo XX, contribu\u00edram para esse aumento populacional.<br><br>Dez anos depois, o censo realizado em 1870 registra 452 mulheres empregadas em estabelecimentos fotogr\u00e1ficos em 28 estados nas mais diversas ocupa\u00e7\u00f5es. Destas, 228 est\u00e3o registradas como fot\u00f3grafas, mas sem indica\u00e7\u00e3o de origem racial. Como refer\u00eancia, no mesmo ano a cidade de Nova York possu\u00eda 300 est\u00fadios fotogr\u00e1ficos.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a d\u00e9cada de 1880 \u00e9 crescente n\u00famero de an\u00fancios de fot\u00f3grafos na imprensa negra, basicamente homens. Surgem casos isolados de mulheres negras, associadas \u00e0 fotografia, em campos distintos. Em 1886, indica Jeanne, Fanny J. Thompson \u00e9 uma praticante amadora, estabelecida no Tennessee. Em 1887, Hattier Baker, em Ohio, atua como profissional especializada em amplia\u00e7\u00f5es fotogr\u00e1ficas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A d\u00e9cada seguinte registra a expans\u00e3o significativa da presen\u00e7a de mulheres como profissionais em fotografia. O censo de 1890 lista 2.201 fot\u00f3grafas, das quais 6 mulheres negras. Esses s\u00e3o os primeiros registros discriminados de ra\u00e7a na s\u00e9rie de censos nos EUA quanto a ocupa\u00e7\u00f5es. No quadro geral, de um total de 975.530 mulheres negras empregadas em todo o pa\u00eds, apenas 2,76% atuavam no segmento de manufaturas e of\u00edcios mec\u00e2nicos, categoria em se insere a fotografia.<\/p>\n\n\n\n<p>Criada em 1900, a <strong>National Negro Business League<\/strong> come\u00e7a a debater a participa\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho. Como indica, essa participa\u00e7\u00e3o j\u00e1 ocorria em todos os segmentos inventariados pelo censo daquele ano. Isso inclui ent\u00e3o 190 fot\u00f3grafos negros. O levantamento lista 17 mulheres negras como fot\u00f3grafas profissionais para um total de 3.587 mulheres atuantes no segmento em todo o pa\u00eds.<br><br>As fontes surpreendem, mas ressalte-se que uma an\u00e1lise acurada mere\u00e7a ser feita pois a men\u00e7\u00e3o de tantos dados em meio ao texto corrido parece exigir mais aten\u00e7\u00e3o. Os n\u00fameros do censo em 1910 indicam que o n\u00famero de fot\u00f3grafas negras mais do que dobrara em uma d\u00e9cada. No entanto, essa fonte poderosa apresenta mudan\u00e7a de par\u00e2metros e perde a relev\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Viewfinders<\/em><\/strong> apresenta no recorte temporal do s\u00e9culo XIX um panorama &nbsp;com uma diversidade de especializa\u00e7\u00f5es (como fot\u00f3grafas, retocadoras e especialistas em impress\u00e3o, por exemplo) e detecta estrat\u00e9gias para conquistar mercados, seja um p\u00fablico amplo ou aquele voltado diretamente a comunidades afro-americanas. A sensibilidade da autora no trato das fontes surpreende, em especial se confrontada com outros profissionais como Naomi Rosenblum (1925), importante historiadora de uma gera\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria entre aquela ativa nos ano 1940, na qual Beaumont Newhall (1908-1974) se insere por exemplo, e outra, mais jovem, que se forma a partir de gradua\u00e7\u00f5es e programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em artes e fotografia.<\/p>\n\n\n\n<p>Conhecida por sua capacidade de trabalhar com extensos conjuntos documentais, Naomi Rosenblum em sua obra <em>A History of Women Photographers <\/em>(1994, Abbeville Press, 356p.), projeto de longa matura\u00e7\u00e3o, tra\u00e7a um quadro menos anal\u00edtico e potente do que o apresentado em <em>Viewfinders<\/em> lan\u00e7ado oito anos antes. Jeanne consegue estabelecer percursos individuais, a despeito de uma iconografia remanescente ainda em configura\u00e7\u00f5es incipientes. Permite entender como ser um produtor de imagens negro na Am\u00e9rica, como empreender e gerar um legado.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma indica\u00e7\u00e3o bibliogr\u00e1fica sobre esse panorama, complementar \u00e0 obra de Jeanne, al\u00e9m das obras de Deborah Willis, \u00e9 um <strong>mero <\/strong>livro de difus\u00e3o, obra de leitura r\u00e1pida: <em>Black artists in photography, 1840-1940 <\/em>(Cobblehill Books, 1996, 104p.). Escrito por George Sullivan (1927), autor de uma centena de publica\u00e7\u00f5es para grande p\u00fablico, em especial jovens leitores, rela\u00e7\u00e3o que inclui biografias sobre os fot\u00f3grafos Matthew Brady e Berenice Abbott, <em>Black artists <\/em>apresenta um conjunto de perfis profissionais distintos, cujo ponto significativo \u00e9 reconhecer a diversidade de a\u00e7\u00f5es desses profissionais, negociando espa\u00e7o de trabalho e a constitui\u00e7\u00e3o de uma clientela em contextos espec\u00edficos (<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/archive.org\/details\/blackartistsinph0000sull\" target=\"_blank\">veja<\/a>). Os ensaios, ainda que sob a marca de uma hist\u00f3ria positiva, introduzem os temas da escravid\u00e3o, do ativismo e da luta antiescravagista no contexto estadunidense, e, em especial, apontam o desafio e limita\u00e7\u00f5es dessas comunidades para se constituirem como sujeitos livres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br><strong>Quando a pele incendeia a mem\u00f3ria: <\/strong>de volta ao Brasil<\/p>\n\n\n\n<p>Descobri Jos\u00e9 por causa do racismo. Em dezembro de 2020, na cidade de Natal, o fot\u00f3grafo Diogo M\u00e3ozinha, como se apresenta, \u00e9 v\u00edtima de agress\u00e3o virtual. Fot\u00f3grafo e dan\u00e7arino, Diogo Ricardo do Nascimento tem seu retrato divulgado, como suspeito de assalto, entre grupos de aplicativos organizados por moradores de bairro de classe m\u00e9dia alta. &nbsp;Diogo expressa indigna\u00e7\u00e3o em seus perfis nas redes sociais o que chama a aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia local. Os algoritmos, poderoso instrumento refor\u00e7ador de repeti\u00e7\u00f5es, giraram em falso em seus desdobramentos.<br><br>Nota sobre o caso surge no portal local <em>Saiba mais: ag\u00eancia de reportagem<\/em> (veja mat\u00e9rias em <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.saibamais.jor.br\/vitima-de-racismo-fotografo-negro-de-natal-tem-imagem-divulgada-em-grupos-de-whatsapp-como-bandido\" target=\"_blank\">09<\/a>  e <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.saibamais.jor.br\/diogo-maozinha-meu-rugido-comecou-sozinho-e-esta-chegando-a-lugares-que-nunca-imaginei\/\" target=\"_blank\">13<\/a>.12.2020). Quase desapercebido, entre os links de outras mat\u00e9rias do jornal, um deles indicava o artigo, escrito por Isabela Santos em setembro de 2018, que noticiava: <em>Livro sobre primeiro fot\u00f3grafo negro do RN participa de festival no Instituto Moreira Salles<\/em> (<a href=\"https:\/\/www.saibamais.jor.br\/livro-sobre-primeiro-fotografo-negro-do-rn-participa-de-festival-no-instituto-moreira-salles\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">veja<\/a>).<br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/almeida-capa-quando-a-pele.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-747\" width=\"491\" height=\"610\"\/><figcaption><strong>Quando a pele incendeia a mem\u00f3ri<\/strong>a, de Angela Almeida. <br>Capa da edi\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica, 2019. <br>Clique aqui para<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/repositorio.ufrn.br\/bitstream\/123456789\/27280\/1\/Quando%20a%20pele%20incendeia%20mem%c3%b3ria.pdf\" target=\"_blank\"> download direto<\/a> ou <br>para ver a <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/repositorio.ufrn.br\/handle\/123456789\/27280\" target=\"_blank\">p\u00e1gina do reposit\u00f3rio UFRN<\/a><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O Festival Zum 2018, em sua convocat\u00f3ria de fotolivros, reunia entre os selecionados: <em>Quando a pele incendeia a mem\u00f3ria<\/em>, de Angela Almeida, editado pela UFRN. Lan\u00e7ado no ano anterior, acompanhado de mostra tem\u00e1tica organizada pela autora, artista visual e docente da UFRN, o livro apresenta um aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 obra de Jos\u00e9 Ezelino da Costa (1889-1952), fot\u00f3grafo negro ativo nas d\u00e9cadas iniciais no s\u00e9culo passado em Caic\u00f3, a quase 300 km de Natal. (veja <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/repositorio.ufrn.br\/bitstream\/123456789\/27280\/1\/Quando%20a%20pele%20incendeia%20mem%c3%b3ria.pdf\" target=\"_blank\">edi\u00e7\u00e3o 2019<\/a>) <br><br>Jos\u00e9, filho de escrava alforriada, atua como fot\u00f3grafo, produzindo retratos e registrando o cotidiano local. No entanto, Angela trabalha aqui com conjunto peculiar de imagens, retratos da fam\u00edlia, sua m\u00e3e e sobrinhos, em cenas posadas, improvisadas em ambientes dom\u00e9sticos. A cole\u00e7\u00e3o \u00e9 pequena, nem mesmo formada por fotos originais, mas quase sempre reprodu\u00e7\u00f5es posteriores. Embora os textos delineiem breve perfil do profissional no contexto de pequena cidade no semi\u00e1rido do Serid\u00f3 potiguar, as imagens surgem como base de interven\u00e7\u00f5es em desenho e aquarela, que buscam nas palavras da autora discutir a representa\u00e7\u00e3o do homem negro em registro privado.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre tantos fotolivros selecionados, <em>Quando a pele incendeia<\/em>, cuja edi\u00e7\u00e3o n\u00e3o segue o formato historiogr\u00e1fico convencional, talvez tenha passado desapercebido.&nbsp; Embora registrado com destaque no site da <em>Revista Zum<\/em> (<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/revistazum.com.br\/radar\/melhores-fotolivros-2018\/\" target=\"_blank\">18.12.2018<\/a>), a edi\u00e7\u00e3o, dispon\u00edvel na Biblioteca de Fotografia IMS, n\u00e3o recebeu aparentemente maior aten\u00e7\u00e3o no contexto paulistano. Caso distinto ocorre na recep\u00e7\u00e3o regional de origem com intensa difus\u00e3o na m\u00eddia digital, em especial.<\/p>\n\n\n\n<p>Lan\u00e7ado em mostra hom\u00f4nima no Natal Shopping, entre 8 e 28 de setembro de 2017, a expografia permitia, diferentemente do livro, visualizar com mais aten\u00e7\u00e3o tanto os retratos em ambiente dom\u00e9stico realizados por Jos\u00e9 Ezelino como a s\u00e9rie produzida por Angela Almeida, como registram as imagens da mostra presentes no blog da artista (<em>Sombra da Oiticica<\/em>, post, <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/sombradaoiticica.wordpress.com\/2017\/10\/02\/exposicao-quando-a-pele-incendeia-a-memoria-nasce-um-fotografo-no-sertao-do-seculo-xix\" target=\"_blank\">02.10.2017<\/a>). Assista tamb\u00e9m a reportagem pela TVU RN, em 14 de setembro, com cenas da abertura da mostra e depoimentos (YT: 2&#8217;53: <a savefrom_lm_index=\"0\" savefrom_lm=\"1\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=HthPzGxaJd4&amp;list=UUQkzzY4zcndB6d09MKiP1yw\">assista<\/a><span style=\"padding: 0; margin: 0; margin-left: 5px;\"><\/span>).<\/p>\n\n\n\n<p>Meses depois, em dezembro, a mostra \u00e9 remontada em Caic\u00f3, onde atuara o fot\u00f3grafo h\u00e1 cem anos, ocupando o Sal\u00e3o Nobre da antiga prefeitura. Um relato da media\u00e7\u00e3o realizada nessa montagem \u00e9 feito pelos educadores no ensaio <em>Media\u00e7\u00e3o art\u00edstica e cultural: construindo sentido a partir da obra de Jos\u00e9 Ezelino da Costa \u2013 Caic\u00f3\/RN<\/em>, publicado no ano seguinte (MIGLIORINI, 2018, p.299-313, <a href=\"https:\/\/www.finersistemas.com\/atenaeditora\/index.php\/admin\/api\/artigoPDF\/2874\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">veja<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<p>Entrevistas a programas locais permitem compreender o processo de pesquisa e organiza\u00e7\u00e3o do livro, como a realizada no programa <em>Caf\u00e9 Filos\u00f3fico, <\/em>produzido pela UFRN, em 12 de dezembro de 2017 (<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=BtnKhMxA77Y\" target=\"_blank\">assista <\/a>no You Tube, 24&#8242;: <span style=\"padding: 0; margin: 0; margin-left: 5px;\"><\/span>), e tamb\u00e9m, dois anos depois, em <em>Caf\u00e9 com foto<\/em>, programa organizado pelo Mercado da Foto, grupo fotogr\u00e1fico ativo em Natal, em 12 de outubro de 2019 (<a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/265267996959128\/videos\/817568425363634\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">assista <\/a>no Facebook: 60&#8242;).<\/p>\n\n\n\n<p>Angela Almeida contou nesse projeto com o apoio da sobrinha-neta do fot\u00f3grafo a arquiteta Ana Z\u00e9lia Maria Moreira, que lhe apresentou o \u00e1lbum de fam\u00edlia, heran\u00e7a deixada por sua m\u00e3e. Nascido em s\u00edtio no Umbuzeiro, em 1889, Jos\u00e9 \u00e9 um dos oito filhos de Bertuleza, que como sua irm\u00e3 Bartuleza, era escrava alforriada. Criado em Caic\u00f3, sede do munic\u00edpio, mora com a m\u00e3e, sem casar-se. As irm\u00e3s, numa fam\u00edlia de muitas mulheres a que se somam as primas, eram costureiras, uma delas especializada em mortalhas. Hoje, os descendentes espalham-se entre os estados do Rio Grande do Norte e Bahia.<\/p>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 manteve atividades entre a fotografia e a m\u00fasica, em especial. O aprendizado em fotografia parece ter sido fruto de dedica\u00e7\u00e3o pessoal. O panorama fotogr\u00e1fico no estado, em especial no sert\u00e3o, no Serid\u00f3, que &nbsp;se espalha entre o Rio Grande e a Para\u00edba, \u00e9 marcado pela presen\u00e7a eventual de profissionais itinerantes. \u00c9 o caso do alem\u00e3o Bruno Bourgard, que, entre 1885 e 1910 estar\u00e1 regularmente ativo entre Natal, no Rio Grande do Norte, e Campina Grande e Jo\u00e3o Pessoa, na Para\u00edba. Como seu irm\u00e3o B. Max Bourgard, com que mant\u00e9m parceria na fase inicial, Bruno deve ter frequentado festas e outros eventos no interior do estado como retratista. O contato com Bourgard nessas ocasi\u00f5es pode ter estimulado Ezelino em optar pela pr\u00e1tica como fot\u00f3grafo profissional. Outro est\u00edmulo plaus\u00edvel poderia ser o contato eventual com figura local, Manoel Dantas (1867-1924), filho de coronel, radicado em Natal, conhecido por sua produ\u00e7\u00e3o amadora com imagens estereosc\u00f3picas da capital do estado.&nbsp; Em Caic\u00f3, cidade de pequeno porte, na qual desde cedo Jos\u00e9 Ezelino atua como m\u00fasico na banda local, com apresenta\u00e7\u00f5es regulares em festejos diversos, esses aspectos podem ter permitido aproxima\u00e7\u00f5es e colaborar na inser\u00e7\u00e3o de um homem negro nos segmentos m\u00e9dios, predominantemente brancos.<\/p>\n\n\n\n<p>Acredita-se que sua primeira c\u00e2mera tenha sido presente de um vizinho que, voltando de uma viagem a Recife, trouxe o equipamento. Angela aponta que o autodidata Jos\u00e9 se estabelece como fot\u00f3grafo negro, produzindo a iconografia de uma comunidade branca, que ir\u00e1 constituir a hist\u00f3ria visual da cidade. Os retratos da fam\u00edlia, do universo privado da comunidade negra, s\u00e3o imagens at\u00e9 agora desconhecidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a rotina do profissional, n\u00e3o h\u00e1 mais dados em <em>Quando a pele incendeia a mem\u00f3ria.<\/em> Sabe-se das viagens a Recife e ao Rio para compra de materiais fotogr\u00e1fico. O est\u00fadio que mant\u00e9m na Avenida Serid\u00f3, ao lado da segunda resid\u00eancia da fam\u00edlia, adotaria ilumina\u00e7\u00e3o zenital, que Ezelino, como aponta Angela, consegue manejar para obter uma luz suave em contraste com a &#8220;luz dura&#8221; do semi\u00e1rido. Ao abandonar a atividade profissional Ezelino teria deixado seus equipamentos com um dos sobrinhos \u2013 Quirino , que atuaria como profissional, em Natal, no bairro do Alecrim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br><strong>Jos\u00e9 Ezelino: fot\u00f3grafo de Caic\u00f3<\/strong><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do que se pode pensar a partir da recep\u00e7\u00e3o da mostra e do livro na m\u00eddia em Natal e Caic\u00f3, sob a marca do fot\u00f3grafo negro pioneiro, Jos\u00e9 Ezelino n\u00e3o era um desconhecido. \u00c9 nesse mesmo registro, que sua obra \u00e9 lembrada, por exemplo, em outubro de 2016, no artigo &#8216;Jos\u00e9 Ezelino, um pioneiro da fotografia seridoense&#8217;, no portal <em>Substantivo Plural, <\/em>por Fernando Bezerra. (<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/substantivoplural.com.br\/do-mes-de-jose-ezelino\/?fbclid=IwAR3z3kh_V5HumfXfmy7oIKG-dS6MXaqow2CyhYKQeg96hrAKKnLU-2xkwqY\" target=\"_blank\">veja<\/a>)<br><br>Outubro \u00e9 m\u00eas de comemora\u00e7\u00e3o em Caic\u00f3, celebra\u00e7\u00e3o da Festa de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio, marca da atua\u00e7\u00e3o desde o final do s\u00e9culo XVIII da Irmandade dos Negros do Ros\u00e1rio, como destaca o artigo. \u00c9 m\u00eas tamb\u00e9m, como lembra sua sobrinha-neta Ana Z\u00e9lia Maria Moreira, do anivers\u00e1rio de morte de Z\u00e9zelino, apelido familiar do fot\u00f3grafo, em 25 de outubro de 1952. Surgem imagens e refer\u00eancias \u00e0 sua produ\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica da cidade. Da enchente de 1924, numa regi\u00e3o semi\u00e1rida marcada por rios intermitentes, da visita do Presidente Washington Luiz, rec\u00e9m-eleito, para inaugurar o Hospital de Serid\u00f3 em 1926, do registro da constru\u00e7\u00e3o do a\u00e7ude Itans, a sudeste do n\u00facleo urbano, inaugurado em 1936 ap\u00f3s longo per\u00edodo de obras iniciadas quatro anos antes.<br><br>Caic\u00f3, onde o fot\u00f3grafo atua, a 282 km de Natal, situa-se no Sert\u00e3o do Serid\u00f3, que se estende ao sul pelo estado da Para\u00edba. Abriga hoje cerca de 68 mil habitantes, como estima o IBGE, cerca de 1,94% da popula\u00e7\u00e3o estadual. Cortado pelos rios Serid\u00f3 e Barra Nova, o n\u00facleo inicial surge em 1748 como distrito, sob a denomina\u00e7\u00e3o de Vila Nova do Pr\u00edncipe. Quarenta anos depois \u00e9 elevado \u00e0 vila, e, em 1868, \u00e0 cidade. Doze anos depois a cidade ganha o nome de Serid\u00f3, mas em poucos meses adota a denomina\u00e7\u00e3o atual.<br><br>A economia \u00e9 marcada no s\u00e9culo XIX pela pecu\u00e1ria, mas nos anos finais do per\u00edodo estabelece-se o ciclo de algod\u00e3o. Durante as d\u00e9cadas iniciais do s\u00e9culo seguinte, essa produ\u00e7\u00e3o ter\u00e1 como fim principal abastecer a ind\u00fastria t\u00eaxtil do Sudeste. A import\u00e2ncia desse produ\u00e7\u00e3o \u00e9 expressa com centralidade no bras\u00e3o da cidade, que tem ao centros ramos de algodoeiro.<br><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/19130920-RJ-MJ-Musica-no-Rio-Grande-do-Norte.-corte.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-760\" width=\"599\" height=\"656\" srcset=\"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/19130920-RJ-MJ-Musica-no-Rio-Grande-do-Norte.-corte.jpg 852w, https:\/\/fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/19130920-RJ-MJ-Musica-no-Rio-Grande-do-Norte.-corte-274x300.jpg 274w, https:\/\/fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/19130920-RJ-MJ-Musica-no-Rio-Grande-do-Norte.-corte-768x842.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 599px) 85vw, 599px\" \/><figcaption><strong>O Malho<\/strong>, RJ, v.12, n\u00ba575, p.[49], <strong>20 de setembro de.1913<\/strong>. Fonte: FBN<br><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u00c9 como m\u00fasico o primeiro registro dispon\u00edvel sobre Jos\u00e9 Ezelino. <em>M\u00fasica no Rio Grande do Norte<\/em> \u00e9 o t\u00edtulo de nota na revista carioca <em>O Malho<\/em>, em 20 de setembro de 1913. Jovem, aos 24 anos, Jos\u00e9 \u00e9 o diretor de ensaio da &#8220;afinada&#8221; banda musical de Caic\u00f3. Na imagem, realizada em S\u00e3o Jo\u00e3o do Sabugy, cidade a algumas dezenas de quil\u00f4metros de Caic\u00f3, onde a banda faz apresenta\u00e7\u00e3o em festejo, ele est\u00e1 sentado ao lado de Francisco Gorgonio, &#8220;diretor geral e grande influ\u00eancia pol\u00edtica local.&#8221;&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/19130920-RJ-MJ-Musica-no-Rio-Grande-do-Norte.-corte-detalhe.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-762\" width=\"613\" height=\"825\" srcset=\"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/19130920-RJ-MJ-Musica-no-Rio-Grande-do-Norte.-corte-detalhe.jpg 337w, https:\/\/fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/19130920-RJ-MJ-Musica-no-Rio-Grande-do-Norte.-corte-detalhe-223x300.jpg 223w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px\" \/><figcaption>No destaque, da esquerda para direita: <strong>Jos\u00e9 Ezelino<\/strong>, diretor de ensaios, e<strong> Francisco Gorgonio<\/strong>, diretor geral e &#8220;grande influ\u00eancia pol\u00edtica local&#8221;.<br>Este aspecto parece ter deixado tra\u00e7os na rela\u00e7\u00e3o de prefeitos de S\u00e3o Jo\u00e3o do Sabugi, elevado \u00e0 munic\u00edpio em 1948. <strong>O Malho<\/strong>, RJ, v.12, n\u00ba575, p.[49], 20 de setembro de.1913. Fonte: FBN<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Ezelino parece aqui contente, junto \u00e0 banda, algo distante do senhor mais velho dos retratos no \u00e1lbum familiar, talvez j\u00e1 afastado da pr\u00e1tica como fot\u00f3grafo. A nota que acompanha a imagem traz dado simb\u00f3lico: ele \u00e9 apresentado como &#8220;nosso assinante.&#8221; Quase certo o envio da imagem \u00e0 reda\u00e7\u00e3o deve ter sido sua iniciativa e indica busca de status social. <em>O Malho<\/em> \u00e9 ent\u00e3o um dos grandes ve\u00edculos da imprensa, com alcance nacional, momento de grande relev\u00e2ncia no segmento, como nos anos 1940 teria o mesmo papel &nbsp;a revista <em>O Cruzeiro<\/em> e, mais tarde, a <em>Manchete.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Cinco anos depois, em 1918, Jos\u00e9 Ezelino j\u00e1 est\u00e1 atuando como fot\u00f3grafo profissional, \u00fanico registrado na cidade de Caic\u00f3. \u00c9 o que indicam os dados publicados no tradicional <em>Almanak Laemmert, <\/em>impresso no Rio de Janeiro, nas edi\u00e7\u00f5es para os anos de 1918 a 1931, agora como <em>Annuario Commercial, industrial, agr\u00edcola, profissional e administrativo da Capital Federal e dos Estados Unidos do Brasil<\/em>. (edi\u00e7\u00f5es relativas aos anos 1918-1923, 1925-1927, 1930-1931).<\/p>\n\n\n\n<p>O almanaque traz regularmente dados que delineiam a imagem da cidade ent\u00e3o: &#8220;O territ\u00f3rio do munic\u00edpio \u00e9 na sua maior parte composto de terrenos pedregosos, impr\u00f3prios para qualquer cultura, frequentemente assolado pelas secas e inunda\u00e7\u00f5es, tem atualmente 400 a\u00e7udes&#8221;. As atividades econ\u00f4micas em destaque s\u00e3o a cultura do algod\u00e3o e da cana de a\u00e7\u00facar, bem como &nbsp;a ind\u00fastria de latic\u00ednios e o beneficiamento de algod\u00e3o. O munic\u00edpio abriga ent\u00e3o um total de 30.000 habitantes,&nbsp; com apenas 1.560 eleitores (lembrando que mulheres, analfabetos, menores de 21 anos, mendigos, ind\u00edgenas, membros do clero, entre outros, n\u00e3o tinham direito a voto ent\u00e3o). Caic\u00f3, em seu n\u00facleo urbano, com 500 &#8220;fogos&#8221;, apresentava uma popula\u00e7\u00e3o de 3.000 habitantes. Esse perfil se mant\u00e9m nos anos seguintes. Em 1922, provavelmente com dados do censo realizado dois anos antes, a popula\u00e7\u00e3o registrada nos almanaques atinge 35 mil habitantes, mas o n\u00facleo urbano conta com apenas 2.500 moradores. Esses n\u00fameros se repetem at\u00e9 1930. Em todos esses anos Jos\u00e9 surge com \u00fanico fot\u00f3grafo registrado. Em 1926, os dados indicam, mencionados aqui &nbsp;como refer\u00eancia, a presen\u00e7a de dois m\u00e9dicos, dois barbeiros e tr\u00eas padarias entre as raras especializa\u00e7\u00f5es, como tamb\u00e9m dois autom\u00f3veis. Francisco Gorgonio da Nobrega, quase certo o diretor da banda musical em 1913 \u00e9 h\u00e1 algum tempo listado como propriet\u00e1rio de uma das duas f\u00e1bricas de &#8220;descaro\u00e7ar arroz&#8221;. Os dados dos munic\u00edpios, nas edi\u00e7\u00f5es de 1930 e 1931, trazem uma total de habitantes menor, com 22 mil moradores, e uma popula\u00e7\u00e3o urbana, estimada em 1927, de 3.500 &#8220;almas&#8221;.<br><br>Em 1926 e anos seguintes, a imprensa registra, tra\u00e7o significativo da inser\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Ezelino na sociedade local, a elei\u00e7\u00e3o como primeiro tesoureiro na chapa que toma posse em maio no Centro Oper\u00e1rio Caicoense. \u00c9 reeleito para o mesmo posto no ano seguinte. (Di\u00e1rio social. <em>Di\u00e1rio de Pernambuco<\/em>, Recife, edi\u00e7\u00f5es de 22 e 27 de maio de 1916, p.2; Vida oper\u00e1ria. <em>A Noite, <\/em>RJ, 30 de junho de 1927, p.2; O Operariado. <em>Jornal do Brasil, <\/em>1 de junho de 1917, p.19). &nbsp;Anos depois \u00e9 eleito, em segmento completamente distinto, em fevereiro de 1937 como tesoureiro do Itans Esporte Clube; reeleito em 1939 na mesma fun\u00e7\u00e3o por mais dois anos (Desportos. <em>A Ordem<\/em>, Natal, 3 de abril de 1937, p.2; idem, 11 de abril de 1939, p.2).<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/20190100-RN-Natal-MJ-PAIVA-Lara.-Este-fot\u00f3grafo-foi...-BRECHANDO-site-00.01.2019-TRATADO.04-pb.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-772\" width=\"637\" height=\"556\" srcset=\"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/20190100-RN-Natal-MJ-PAIVA-Lara.-Este-fot\u00f3grafo-foi...-BRECHANDO-site-00.01.2019-TRATADO.04-pb.jpg 398w, https:\/\/fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/20190100-RN-Natal-MJ-PAIVA-Lara.-Este-fot\u00f3grafo-foi...-BRECHANDO-site-00.01.2019-TRATADO.04-pb-300x262.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px\" \/><figcaption><strong>An\u00fancio, sem data e ve\u00edculo de publica\u00e7\u00e3o<\/strong>, circulado na internet em diversos posts, mas provavelmente editado em: <strong>O Seridoense, 16.07.1926<\/strong>, conforme indicado em:  ROSTAND, Medeiros. &#8216;Caic\u00f3 atrav\u00e9s dos seus servi\u00e7os p\u00fablicos e privados&#8217;. <strong>Tok de Hist\u00f3ria<\/strong>, site, 29.05.2011, no qual o autor Medeiro Rostand refere-se ao fot\u00f3grafo como &#8220;Manoel Eselino&#8221;. (<a href=\"https:\/\/tokdehistoria.com.br\/2011\/05\/29\/1926-caico-atraves-dos-seus-servicos-publicos-e-privados\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">veja<\/a>)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Data tamb\u00e9m de 1926, o \u00fanico an\u00fancio conhecido do fot\u00f3grafo, provavelmente publicado no jornal <em>O Serid\u00f3ense<\/em>, de 16 de julho. Registro circulado usualmente na internet, sem dados de publica\u00e7\u00e3o, entre eles em artigo de Medeiros Rostand, em 29 de maio de 2011: &#8216;Caic\u00f3 atrav\u00e9s dos seus servi\u00e7os p\u00fablicos e privados<em>&#8216;, <\/em>no site <em>Tok de hist\u00f3ria. <\/em>Curiosamente, o autor refere-se ao fot\u00f3grafo como &#8220;Manoel Eselino&#8221;, al\u00e9m de fazer refer\u00eancia a um total de dez mil imagens produzidas pelo profissional (<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/tokdehistoria.com.br\/2011\/05\/29\/1926-caico-atraves-dos-seus-servicos-publicos-e-privados\/\" target=\"_blank\">veja<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<p>A inser\u00e7\u00e3o publicit\u00e1ria, sob o t\u00edtulo <em>Jos\u00e9 Eselino: photographo, <\/em>grafado com &#8220;s&#8221;, \u00e9 curiosa: veja a reprodu\u00e7\u00e3o acima. Caso raro, no segmento, &nbsp;inclui em destaque o retrato do pr\u00f3prio profissional, que parece utilizado como marca de identidade numa cidade de pequenas dimens\u00f5es. O texto enfatiza a &#8220;longa pr\u00e1tica&#8221; adquirida com profissionais do Rio e Recife, como tamb\u00e9m a produ\u00e7\u00e3o de retratos &#8220;grandes e pequenos, com e sem molduras&#8221;, para o que disp\u00f5e de aparelhos e &#8220;bastante material para atender a qualquer encomenda.&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 Ezelino parece estar em atividade ainda em 1937, ao longo de quase duas d\u00e9cadas de pr\u00e1tica. \u00c9 o que poss\u00edvel supor a partir de nota na imprensa, no <em>Jornal do Recife,<\/em> em 29 de outubro, que indica o regresso a Caic\u00f3 no dia 18, de volta de Recife, de Jos\u00e9 Ezelino e Humberto Gama, onde &#8220;foram a neg\u00f3cios&#8221; (Dos estados. <em>Jornal do Recife<\/em>, Recife, 29.10.1937, p.5).<\/p>\n\n\n\n<p>Nos ano seguintes n\u00e3o h\u00e1 registro de sua atua\u00e7\u00e3o como fot\u00f3grafo. Como m\u00fasico, participa em abril de 1941 da primeira missa cantada do Padre Eymard Monteiro, na Catedral de Caic\u00f3. &#8220;Inicialmente o coro, constitu\u00eddo por um grupo de distintas senhorinhas, dirigidas pelas Irm\u00e3s do Amor Divino, coadjuvadas pelo maestro Jos\u00e9 Ezelino e seminarista Aderbal Vilar, entoou o c\u00e2ntico <em>Juravit<\/em>.&#8221; (A primeira missa do Pe.Eymard Monteiro. <em>A Ordem<\/em>, Natal, 17 de janeiro de 1941, p.1). A atividade musical parece assim ter sido pr\u00e1tica cont\u00ednua.&nbsp; Em 1936, em registro anterior, Ezelino anunciava no jornal <em>A Ordem<\/em>, de Natal, em agosto a venda &#8220;por pre\u00e7o razo\u00e1vel uma bateria de jazz-band nickelada, completamente nova&#8221; (<em>A Ordem, <\/em>edi\u00e7\u00f5es de 1, 5, 6 e 7 de agosto, p.2). O interesse musical estende-se aos diversos g\u00eaneros, chegando Jos\u00e9 a integrar a orquestra Jazz Independ\u00eancia (DANTAS, 2003, p.189)<br><br>Data de 1942<strong> <\/strong>o \u00faltimo registro na imprensa, quando o fot\u00f3grafo aparece entre as ades\u00f5es ao banquete oferecido ao Bispo de Caic\u00f3 (Diocese de Caic\u00f3. <em>A Ordem<\/em>, Natal, 20 de novembro de 1942, p.3). Esse conjunto de a\u00e7\u00f5es, al\u00e9m da pr\u00e1tica profissional prolongada, permitem caracterizar o grau de inser\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Ezelino, homem negro, em diferentes momentos da vida social local, que se articulam como marcas de prest\u00edgio e busca de autenticidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Caic\u00f3, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1950, quando Jos\u00e9 Ezelino morre, \u00e9 cidade em intensa modifica\u00e7\u00e3o e ao mesmo tempo imemorial. Em 1950, o munic\u00edpio conta com 24.214 habitantes, dos quais cerca de 7.000 no n\u00facleo urbano. Das 59 ruas que comp\u00f5em esse n\u00facleo apenas sete s\u00e3o pavimentadas. A luz que ilumina no in\u00edcio da noite suas ruas depende, como implantado em 1925,&nbsp; do gerador utilizado pela prefeitura. Ent\u00e3o sua economia marcada pelo com\u00e9rcio do algod\u00e3o d\u00e1 espa\u00e7o ao beneficiamento do produto. Dez anos depois a popula\u00e7\u00e3o urbana mais do que duplica, atingindo 16.233 habitantes, em contraste com o total do municipal que supera por pouco um crescimento de dez por cento (ARAUJO, 2010, p.14-15). Das imagens da cidade produzidas por Ezelino pouco se sabe quanto a extens\u00e3o, tem\u00e1rio e per\u00edodos de cobertura. Dos retratos e reportagens sociais, como casamentos e festas, menos ainda, embora se possa prever uma extensa recorr\u00eancia nas cole\u00e7\u00f5es privadas locais, em \u00e1lbuns e retratos isolados. As imagens remanescentes localizadas, reprodu\u00e7\u00f5es posteriores, n\u00e3o trazem marcas do est\u00fadio,\u00e0 exce\u00e7\u00e3o do retrato de grupo reproduzido no in\u00edcio do artigo com carimbo circular: &#8220;Jos\u00e9 Ezelino \/ photographo\/ Caic\u00f3&#8221;. Apenas uma publica\u00e7\u00e3o, na d\u00e9cada de 1990, parece reunir imagens de sua autoria, ainda assim, mesmo nos textos acad\u00eamicos, indicada de forma pouco precisa: <em>\u00c1lbum fotogr\u00e1fico: Caic\u00f3. Ontem e hoje <\/em>(Caic\u00f3: \u00c9le \u00c9le\/Comunica\u00e7\u00e3o publicit\u00e1ria de Caic\u00f3, [1994])<br><br>Avaliar, contudo, a presen\u00e7a de suas imagens em acervos p\u00fablicos \u00e9, remotamente, implaus\u00edvel. Tanto o arquivo da cidade, que n\u00e3o \u00e9 registrado nas p\u00e1ginas online da administra\u00e7\u00e3o municipal ou da C\u00e2mara, como o Arquivo P\u00fablico do Estado, cujo endere\u00e7o online traz dados sum\u00e1rios sobre a institui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podem ser avaliados. Nem mesmo dados mais precisos sobre acervo s\u00e3o identificados no Museu do Serid\u00f3, unidade universit\u00e1ria mantida pela UFRN. No entanto, \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica da universidade federal, em mestrados e doutorados e nas revistas acad\u00eamicas, o principal conjunto documental e cr\u00edtico a explorar como fonte para estudos futuros, como veremos, pois, como todo o sistema do segmento no Brasil, ele se realiza plenamente em forma digital.<br><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Um mundo \u00e0 frente: um projeto para novas gera\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em termos simb\u00f3licos, poder\u00edamos pensar como mera coincid\u00eancia que a figura de Jos\u00e9 Ezelino da Costa, no sert\u00e3o de Serid\u00f3, no Rio Grande do Norte, fosse o marco inicial desse grande projeto geracional que se imp\u00f5e para recuperar a presen\u00e7a negra na fotografia brasileira anterior \u00e0 d\u00e9cada de 1950.&nbsp; Evento, que nos alerta sobre onde procurar outros autores em din\u00e2micas pr\u00f3ximas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse encontro n\u00e3o teve lugar como esperado at\u00e9 agora. N\u00e3o, como entre tantos outras situa\u00e7\u00f5es  tomadas como hip\u00f3teses. Seja  como eventual fot\u00f3grafo atuante nas cidades do Sudeste brasileiro, como Rio ou S\u00e3o Paulo, onde se imaginaria plaus\u00edvel a presen\u00e7a nos est\u00fadios de retratos das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX como m\u00e3o de obra contratada. Ou terceirizada, em servi\u00e7os como o retoque, usual segmento que utiliza por exemplo a m\u00e3o de obra feminina, sem v\u00ednculos permanentes. &nbsp;Ou ainda a possibilidade de atua\u00e7\u00e3o, de ascens\u00e3o poss\u00edvel, atrav\u00e9s da ind\u00fastria gr\u00e1fica (afinal Machado de Assis foi contratado como aprendiz de tip\u00f3grafo, aos 17 anos, em 1856), em especial a partir da d\u00e9cada de 1910 quando grandes grupos editoriais surgem em S\u00e3o Paulo ou Rio. Ou ainda, no fotojornalismo, em surtos de renova\u00e7\u00e3o nas d\u00e9cadas de 1910 e 1940. \u00c9 aqui por exemplo que Walter Firmo d\u00e1 in\u00edcio nos anos 1960 a uma carreira de mais de 60 anos, mas Firmo \u00e9 um dos raros marcos de outra hist\u00f3ria da qual &#8220;conhecemos algo&#8221;, apenas isso &#8220;algo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi no fotojornalismo da d\u00e9cada de 1970 que casos similares podem ser identificados, alguns dos quais conheci em meus primeiros contatos com o campo da fotografia em 1982, fot\u00f3grafos negros ativos em jornais como <em>Not\u00edcias Populares<\/em> ou outros do grupo Folha, quando a quest\u00e3o dessa presen\u00e7a, dessa aus\u00eancia, n\u00e3o surgia para mim como problema, pois eram indiv\u00edduos pr\u00f3ximos, vis\u00edveis. Como tamb\u00e9m era concreta a presen\u00e7a de Walter Firmo, como fato reconhecido, como sinaliza em 1983 a mostra individual <em>Ensaio no tempo: 25 anos de fotojornalismo<\/em>, no MAM Rio, em dezembro, remontada em outubro do ano seguinte no MASP. Estranha contabilidade, por\u00e9m, ocorre no t\u00edtulo da mostra, prov\u00e1vel recurso ret\u00f3rico, pois Walter Firmo j\u00e1 est\u00e1 creditado com destaque na mat\u00e9ria <em>Um dia na vida de Copacabana<\/em>, na edi\u00e7\u00e3o de&nbsp; junho de 1966, em dez p\u00e1ginas (p.38-47 e 49: <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/memoria.bn.br\/DocReader\/docreader.aspx?bib=004120&amp;pesq=walter%20firmo&amp;pagfis=70520\" target=\"_blank\">veja <\/a>e aproveite e explore a presen\u00e7a de Firmo na <em>Manchete <\/em>como membro da equipe entre 1966 e 1971).<br><br><\/p>\n\n\n\n<p><em>Quando a pele incendia a mem\u00f3ria<\/em> n\u00e3o \u00e9, assim, uma resposta, nem um ponto de chegada, mas um ponto de deflex\u00e3o. O registro documental pare\u00e7a ser m\u00ednimo, restrito \u00e0 mem\u00f3ria familiar, e ainda exige maior investiga\u00e7\u00e3o nessa dupla perspectiva de esferas p\u00fablica e privada. Mas a edi\u00e7\u00e3o, a percep\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Ezelino como autor negro, \u00e9 um direcionamento potente.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tanto a responder, a problematizar: a inser\u00e7\u00e3o das comunidades negras em n\u00facleos urbanos de escala similar, a din\u00e2mica das rela\u00e7\u00f5es raciais, os marcadores sociais do Sert\u00e3o, distante dos n\u00facleos urbanos do litoral. &nbsp;\u00c9 poss\u00edvel, mesmo agora, avan\u00e7ar e explorar, como mencionamos, o repert\u00f3rio acad\u00eamico regional que se estabelece nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas. Ele permite caracterizar din\u00e2micas, definir historicidade, para entender as perman\u00eancias do legado da escravid\u00e3o.<br><br><\/p>\n\n\n\n<p>Quase certo a primeira refer\u00eancia a Ezelino nesse segmento data de 2000. Surge no contexto de recupera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria urbana, da cultura do interior potiguar. Eug\u00eania Maria Dantas, j\u00e1 docente da UFRN Campus Caic\u00f3, doutoranda em Educa\u00e7\u00e3o, participa da <em>23\u00aa Reuni\u00e3o Anual da ANPEd<\/em>, em Caxambu (MG), em setembro de 2000, com a comunica\u00e7\u00e3o <em>Educa\u00e7\u00e3o-fotografia:&nbsp; impress\u00f5es e sentidos<\/em> (<a href=\"http:\/\/23reuniao.anped.org.br\/textos\/0209t.PDF\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">veja<\/a>). Dantas discute ent\u00e3o a educa\u00e7\u00e3o enquanto espa\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o e o papel da narrativa hist\u00f3rica nessa aproxima\u00e7\u00e3o. Delineia conceitos implicados em seu projeto de doutorado como mem\u00f3ria e discurso fotogr\u00e1fico, apresenta\u00e7\u00e3o que encerra com cita\u00e7\u00e3o de Moacyr Cirne, acad\u00eamico, nascido em S\u00e3o Jos\u00e9 do Serid\u00f3, atuante no Rio de Janeiro, considerado um dos grandes especialistas brasileiros em HQs, que explicita a refer\u00eancia j\u00e1 estabelecida sobre o fot\u00f3grafo: &#8220;Antes de Mim, \/ entre o Serid\u00f3 e o Barra Nova \/ Caic\u00f3 j\u00e1 existia, \/ As fotos de Jos\u00e9 Ezelino\/ Uma s\u00f3 poeira um s\u00f3 antigamente\/ N\u00e3o me deixam mentir\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Antes da conclus\u00e3o do doutorado em 2003, Dantas apresenta a comunica\u00e7\u00e3o <em>Jos\u00e9 Ezelino: escritos pela luz<\/em>, no <em>II Congresso Brasileiro de Hist\u00f3ria da Educa\u00e7\u00e3o<\/em> (Natal, 2002). No ano seguinte, publica o ensaio <em>Jos\u00e9 Ezelino e a escrita da luz<\/em>, na antologia <em>Polif\u00f4nicas id\u00e9ias: por uma ci\u00eancia aberta <\/em>(Porto Alegre, 2003, p.187-190).<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de sua atua\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, como orientadora, Dantas acaba estimulando o estudo da documenta\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica, como registro documental, como discurso simb\u00f3lico nos processos culturais no recorte regional. Entre eles, incluem-se bolsistas de inicia\u00e7\u00e3o que se integram em meados da d\u00e9cada de 2000 ao projeto de pesquisa <em>Fotografia e Complexidade: itiner\u00e1rios norte-rio-grandenses<\/em>, coordenado pela docente (veja, por exemplo, <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.cei.unir.br\/artigo95.html\" target=\"_blank\">MELO, 2006<\/a>), muitos deles autores que trabalhar\u00e3o esse tem\u00e1rio ao longo dos projetos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo contribui\u00e7\u00f5es fundamentais para esse projeto geracional t\u00eam lugar nos campos da antropologia, da geografia, atentos \u00e0s din\u00e2micas socioculturais de longa dura\u00e7\u00e3o em especial.&nbsp; Nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas \u00e9 poss\u00edvel identificar na produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica no recorte potiguar a\u00e7\u00f5es que p\u00f5em em quest\u00e3o a constru\u00e7\u00e3o social que ocorre em meados do s\u00e9culo passado promovendo uma paisagem social em que as comunidades ind\u00edgenas e negras foram suprimidas.<br><br>Nessa dire\u00e7\u00e3o, seria poss\u00edvel destacar a produ\u00e7\u00e3o da antrop\u00f3loga Julie Antoinette Cavignac (UFRN\/DAN). Seu artigo <em>A etnicidade encoberta: &#8216;\u00edndios&#8217; e &#8216;negros&#8217; no Rio Grande do Norte<\/em> (Mneme, 2010, <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/periodicos.ufrn.br\/mneme\/article\/view\/167\" target=\"_blank\">veja<\/a>) aborda &#8220;<strong>aus\u00eancias vis\u00edveis<\/strong> tanto na produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica quanto nas representa\u00e7\u00f5es coletivas&#8221; (grifo nosso), atrav\u00e9s de uma revis\u00e3o severa&nbsp; em longo artigo. Destaca a percep\u00e7\u00e3o que se estabelece de um estado em que, distante dos grandes ciclos econ\u00f4micos, teria vivenciado uma escravid\u00e3o peculiar, como fen\u00f4meno permeado por rela\u00e7\u00f5es de poder amenizadas. Esse processo ideol\u00f3gico, no qual autores como o antrop\u00f3logo Luis da Camara Cascudo (1898-1986) t\u00eam participa\u00e7\u00e3o, teria estabelecido condi\u00e7\u00f5es de menor est\u00edmulo a estudos de casos, depura\u00e7\u00e3o de estat\u00edsticas, agindo no limite como obst\u00e1culo ao reconhecimento e autorreconhecimento daqueles grupos sociais.&nbsp;<br><br>Cavignac enfrenta os dados dispon\u00edveis, conflitantes quase sempre. Caic\u00f3, antes de ser Caic\u00f3, conta em 1811 com 871 escravos. Em 1824, outro registro indica a presen\u00e7a de 2.112&nbsp; brancos,&nbsp; 2.799&nbsp; pardos&nbsp; e&nbsp; 455&nbsp; negros&nbsp; em&nbsp; Caic\u00f3, decr\u00e9scimo neste caso, pela caracter\u00edstica peculiar econ\u00f4mica que levava a uso menos intensivo de m\u00e3o de obra escrava, com &nbsp;espa\u00e7os sociais mais fluidos quanto \u00e0 conviv\u00eancia entre n\u00facleo familiar branco e o trabalhador escravizado, nem por isso menos regulados socialmente. &#8220;Nessa&nbsp; \u00e9poca&#8221; (1854)&#8221;,&nbsp; o&nbsp; interior&nbsp; do&nbsp; Rio&nbsp; Grande&nbsp; do&nbsp; Norte, sobretudo as regi\u00f5es de A\u00e7u e de Caic\u00f3 concentravam um grande n\u00famero de escravos;&nbsp; eram&nbsp; geralmente&nbsp; empregados&nbsp; na&nbsp; agricultura&nbsp; a&nbsp; na&nbsp; cria\u00e7\u00e3o&nbsp; de&nbsp; gado (Lima 1988: 22). O estudo dos dados leva a pensar que o Serid\u00f3 possu\u00eda um n\u00famero&nbsp; elevado&nbsp; de&nbsp; escravos,&nbsp; desde&nbsp; o&nbsp; final&nbsp; do&nbsp; s\u00e9culo&nbsp; XVIII.&#8221; (CAVIGNAC, 2010, p.36).<\/p>\n\n\n\n<p>Para aprofundar essas quest\u00f5es, nos mais diversos registros, \u00e9 oportuno a leitura da antologia &nbsp;<em>Serid\u00f3 Potiguar: sujeitos, espa\u00e7os e pr\u00e1ticas<\/em>&nbsp; (Editora IFRN, 2016, <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/memoria.ifrn.edu.br\/bitstream\/handle\/1044\/977\/Serid\u00f3 Potiguar \u2013 Ebook.pdf\" target=\"_blank\">veja<\/a>), com contribui\u00e7\u00f5es a partir da produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica recente. Entre elas, ensaios que caracterizam as condi\u00e7\u00f5es de inser\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o interracial nesse contexto como os artigos de Pedro Queiroz \u2013 &#8216;Os mecanismos de preconceito racial numa cidade de sangue no sert\u00e3o&#8217; (p.47-64),&nbsp; e de Bruno Silva \u2013 &#8216;\u201cNego veio \u00e9 um sofrer\u201d: representa\u00e7\u00e3o, ag\u00eancia e subalternidade numa irmandade negra do Serid\u00f3&#8217; (p.65-82).<\/p>\n\n\n\n<p>Entre tantos caminhos poss\u00edveis, a trajet\u00f3ria futura sobre os estudos dedicados \u00e0 presen\u00e7a de Jos\u00e9 Ezelino da Costa \u00e9 caminho em aberto. Como o rel\u00e2mpago que ilumina a paisagem noturna por mil\u00e9simos de um tempo que parece eterno, o conhecimento da produ\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o e reitera\u00e7\u00e3o de suas imagens delineia, numa percep\u00e7\u00e3o fugaz, um horizonte de expectativas que \u00e9 preciso dar forma efetiva, como desejo ardente.<br><\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Livros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>ALMEIDA, Angela. <em>Quando a pele incendeia a mem\u00f3ria<\/em>: nasce um fot\u00f3grafo no sert\u00e3o do s\u00e9culo XIX. Natal: EDUFRN, 2017. 145p. vers\u00e3o impressa. distribui\u00e7\u00e3o gratuita<br>dispon\u00edvel em: Biblioteca de Fotografia- IMS Paulista (SP)<br><\/li><li>ALMEIDA, Angela. <em>Quando a pele incendeia a mem\u00f3ria<\/em>: nasce um fot\u00f3grafo no sert\u00e3o do s\u00e9culo XIX. Natal: EdUFRN, 2019. 138p.<br>publica\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica (<strong>PDF<\/strong>)<br>dispon\u00edvel em: <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/repositorio.ufrn.br\/handle\/123456789\/27280\" target=\"_blank\">https:\/\/repositorio.ufrn.br\/handle\/123456789\/27280<\/a><br>Acesso em: 20 de dezembro de 2020<br><br><\/li><\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>DANTAS, Eug\u00eania Maria. Jos\u00e9 Ezelino e a escrita pela luz. In: ALMEIDA, &nbsp;Maria da Concei\u00e7\u00e3o de (org), KNOBB, Margarida (org); ALMEIDA, &nbsp;Angela Maria de (org.). <em>Polif\u00f4nicas ideias: por uma ci\u00eancia aberta<\/em>. Porto Alegre: Sulina, 2003, p. 187-190.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>_____. <em>Fotografia e Complexidade: a educa\u00e7\u00e3o pelo olhar<\/em> . Natal: UFRN, 2003. Tese de doutorado em Educa\u00e7\u00e3o. Orienta\u00e7\u00e3o: Maria da Concei\u00e7\u00e3o de Almeida.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>MOUTOUSSAMY-ASHE, Jeanne.&nbsp; <em>Viewfinders<\/em>: black women photographers.&nbsp; New York: Dodd Mead &amp; Co, 1986.&nbsp; 201p. 2\u00aa ed.- 1993, Writers &amp; Readers Publishing.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>QUEIROZ, Pedro Fernandes de. Os mecanismos de preconceito racial numa cidade de sangue no sert\u00e3o. In: MACEDO, Helder Alexandre Medeiros de (org), MEDEIROS, Ol\u00edvia Morais de (org), SANTOS, Rosenilson da Silva (org).&nbsp; <em>Serid\u00f3 Potiguar: sujeitos, espa\u00e7os e pr\u00e1ticas<\/em>. Caic\u00f3: Editora IFRN, 2016, p.47-64.<br>dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/memoria.ifrn.edu.br\/bitstream\/handle\/1044\/977\/Serid\u00f3%20Potiguar%20\u2013%20Ebook.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/memoria.ifrn.edu.br\/bitstream\/handle\/1044\/977\/Serid\u00f3 Potiguar \u2013 Ebook.pdf<\/a><br>Acesso em: 2 de janeiro de 2021.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>SANTOS, Valentim dos; SILVA, Andr\u00e9 Vicente e. &#8216;Media\u00e7\u00e3o art\u00edstica e cultural: construindo sentido a partir da obra de Jos\u00e9 Ezelino da Costa &#8211; Caic\u00f3\/RN&#8217;. in: MIGLIORINI, Jeanine Mafra (org). <em>Reflex\u00f5es sobre a arte e o seu ensino<\/em>. Ponta Grossa: Atena Editora, 2018, p.299-313<br>dispon\u00edvel em: <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.atenaeditora.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/E-book-Arte-1.pdf\" target=\"_blank\">https:\/\/www.atenaeditora.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/E-book-Arte-1.pdf<\/a><br>Acesso em: 2 de janeiro de 2021.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>SILVA, Bruno Goulart Machado. \u201cNego veio \u00e9 um sofrer\u201d: representa\u00e7\u00e3o, ag\u00eancia e subalternidade numa irmandade negra do Serid\u00f3. In: MACEDO, Helder Alexandre Medeiros de (org), MEDEIROS, Ol\u00edvia Morais de (org), SANTOS, Rosenilson da Silva (org).&nbsp; <em>Serid\u00f3 Potiguar: sujeitos, espa\u00e7os e pr\u00e1ticas<\/em>. Caic\u00f3: Editora IFRN, 2016, p.65-82.<br>dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/memoria.ifrn.edu.br\/bitstream\/handle\/1044\/977\/Serid\u00f3%20Potiguar%20\u2013%20Ebook.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/memoria.ifrn.edu.br\/bitstream\/handle\/1044\/977\/Serid\u00f3 Potiguar \u2013 Ebook.pdf<\/a><br>Acesso em: 2 de janeiro de 2021.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size\"><strong>Artigos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>ALMEIDA, Angela. Exposi\u00e7\u00e3o: Quando a pele incendeia a mem\u00f3ria-nasce um fot\u00f3grafo no sert\u00e3o do s\u00e9culo XIX. <em>Sombra da Oiticica<\/em>, site, 02.10.2017. <br>dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/sombradaoiticica.wordpress.com\/2017\/10\/02\/exposicao-quando-a-pele-incendeia-a-memoria-nasce-um-fotografo-no-sertao-do-seculo-xix\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/sombradaoiticica.wordpress.com\/2017\/10\/02\/exposicao-quando-a-pele-incendeia-a-memoria-nasce-um-fotografo-no-sertao-do-seculo-xix\/<\/a><br>Acesso em: 2 de janeiro de 2021.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>_____. Fotos de Jos\u00e9 Ezelino da Costa (1889-1952). <em>Sombra da Oiticica<\/em>, site, 02.10.2017. <br>dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/sombradaoiticica.wordpress.com\/2017\/10\/02\/fotos-de-jose-ezelino-1889-1952\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/sombradaoiticica.wordpress.com\/2017\/10\/02\/fotos-de-jose-ezelino-1889-1952\/<\/a><br>Acesso em: 2 de janeiro de 2021.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>ARAUJO, Marcos Ant\u00f4nio Alves de. &#8216;Caic\u00f3\/RN em papel e tinta: representa\u00e7\u00f5es da cidade no&nbsp; jornal A F\u00f4lha (1954-1958)&#8217;. <em>Espacialidades<\/em>, v.3, n\u00ba 2, p.1-24, 2010.<br>dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.ufrn.br\/espacialidades\/article\/view\/17651\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/periodicos.ufrn.br\/espacialidades\/article\/view\/17651<\/a><br>Acesso em: 2 de janeiro de 2021.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>BEZERRA, Fernando Antonio. Jos\u00e9 Ezelino, um pioneiro da fotografia seridoense. <em>Substantivo Plural<\/em>, site, RN, 24.10.2016, Fotografia<br>dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/substantivoplural.com.br\/do-mes-de-jose-ezelino\/?fbclid=IwAR3z3kh_V5HumfXfmy7oIKG-dS6MXaqow2CyhYKQeg96hrAKKnLU-2xkwqY\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">http:\/\/substantivoplural.com.br\/do-mes-de-jose-ezelino\/?fbclid=IwAR3z3kh_V5HumfXfmy7oIKG-dS6MXaqow2CyhYKQeg96hrAKKnLU-2xkwqY<\/a><br>Acesso em: 2 de janeiro de 2021.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>FALBEL, Anat. Georgia Louise Harris Brown. In: BWAF: Beverly Willis Architecture Foundation. <em>Pioneering woman of american architecture&#8217;<\/em>: [biographies], site. <br>dispon\u00edvel em: <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/pioneeringwomen.bwaf.org\" target=\"_blank\">https:\/\/pioneeringwomen.bwaf.org<\/a><br>Acesso em: 14 de junho de 2020.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>M\u00c9LO, Evaneide Maria. Sendas imag\u00e9ticas: o ato fotogr\u00e1fico no Serid\u00f3 potiguar. <em>Labirinto<\/em>, revista do Centro de Estudos do Imagin\u00e1rio, UNIR, Porto Velho, VI(9): jan\/jun.2006.<br>dispon\u00edvel em: http:\/\/ <a href=\"http:\/\/www.cei.unir.br\/artigo95.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">www.cei.unir.br\/artigo95.html<\/a><br>Acesso em: 2 de janeiro de 2021.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>M\u00fasica no Rio Grande do Norte. <em>O Malho<\/em>, RJ, ano 12, v.575, p.[49], 20 de setembro de 1913.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Todas as mat\u00e9rias jornal\u00edsticas listadas, salvo indica\u00e7\u00e3o em contr\u00e1rio, integram o acervo FBN\/Hemerotica Digital.<br><a href=\"http:\/\/memoria.bn.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">http:\/\/memoria.bn.br<\/a><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><strong>Como citar<\/strong>:<br>MENDES, Ricardo. O limiar interrompido: a presen\u00e7a de autores negros na fotografia brasileira antes da d\u00e9cada de 1950. <em>Boletim FotoPlus<\/em>, n\u00ba 54, jan\/mar.2021. dispon\u00edvel em: <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.fotoplus.com\/duas\/?p=733\" target=\"_blank\">http:\/\/www.fotoplus.com\/duas\/?p=733<\/a>. acesso em: [dia], [m\u00eas], [ano]<br><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O limiar interrompido:a presen\u00e7a de autores negros na fotografia brasileira antes da d\u00e9cada de 1950 FotoPlus #54 \u2013 Janeiro\/Mar\u00e7o 2021 Notas a partir do livro Quando a pele incendeia a mem\u00f3ria: nasce um fot\u00f3grafo no sert\u00e3o do s\u00e9culo XIX,de Angela Almeida (EDUFRN, 2017, 145p.)&gt;&gt; download Apenas ao final da d\u00e9cada de 1980 com alguma const\u00e2ncia, &hellip; <a href=\"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/?p=733\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;O limiar interrompido&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[82,24,23],"tags":[98,19,110,96,97,99],"class_list":["post-733","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-fotoplus","category-historia-da-fotografia","category-resenha","tag-angela-almeida","tag-fotografia-seculo-xx","tag-fotografos-negros","tag-jose-ezelino-da-costa","tag-retrato","tag-ufrn"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/733","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=733"}],"version-history":[{"count":166,"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/733\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":931,"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/733\/revisions\/931"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=733"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=733"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=733"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}