{"id":618,"date":"2020-08-30T12:47:21","date_gmt":"2020-08-30T12:47:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.fotoplus.com\/duas\/?p=618"},"modified":"2020-08-30T13:59:13","modified_gmt":"2020-08-30T13:59:13","slug":"ricardo-hantzschel-e-imagens-da-serie-covidgrafias-2020","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/?p=618","title":{"rendered":"Ricardo Hantzschel e imagens da s\u00e9rie &#8216;Covidgrafias&#8217; (2020)"},"content":{"rendered":"\n<p>FotoPlus #52 \u2013 Agosto 2020<br><br><strong>Modos de resili\u00eancia entre o privado e o p\u00fablico<\/strong><br><br><\/p>\n\n\n\n<p>Fot\u00f3grafo paulistano, Ricardo Hantzschel (1964), um dos nomes mais conhecidos entre os produtores de imagens que fazem uso de recursos de capta\u00e7\u00e3o como o <em>pinhole<\/em>, as c\u00e2meras buracos de agulha, e de processos hist\u00f3ricos de impress\u00e3o como o papel salgado, al\u00e9m do projeto social <em>Cidade invertida, <\/em>teve como todos n\u00f3s, de uma forma ou de outra, de parar. Em meados de mar\u00e7o, a quarentena se imp\u00f4s.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre tr\u00eas de maio e primeiro de julho, sessenta postagens, algo t\u00edmidas, surgem em seu perfil <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.instagram.com\/rhantzschel\" target=\"_blank\">@rhantzschel<\/a>, no <em>Instagram<\/em>, trazendo a s\u00e9rie <em>Covidgrafia<\/em>s. N\u00e3o se trata, por\u00e9m, da \u00fanica produ\u00e7\u00e3o que vem a p\u00fablico. Dias depois, em sete de maio, a s\u00e9rie <em>Covidgrama<\/em> surge em outro perfil &#8211; <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.instagram.com\/hantzschelpinhole\" target=\"_blank\">@hantzschelpinhole<\/a>. Curiosamente <em>Covidgrama<\/em> aparece de forma mais livre, n\u00e3o articulada, mas marcada pelo uso de processos de impress\u00e3o como o fotograma, a cianotipia (n\u00ba <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CDbc5LBHXBn\/\" target=\"_blank\">19<\/a>, por exemplo). As obras postadas, at\u00e9 26 de agosto por enquanto (n\u00ba 22), s\u00e3o registros de experimenta\u00e7\u00e3o, explorando cores sobrepostas e o uso de objetos inusitados e folhagens em suas impress\u00f5es sem filme.<\/p>\n\n\n\n<p>Em <em>Covidgrafia<\/em>s, em seu perfil pessoal, Hantzschel constr\u00f3i encadeamento distinto de imagens. Em tr\u00eas de maio, sua <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/B_vgLYxHOhc\/\" target=\"_blank\">primeira postagem<\/a>, ainda sem t\u00edtulo, traz imagem apropriada de Louis Stettner (EUA. 1922-2016), t\u00e3o distorcida espacialmente que mal se revela \u00e0 primeira vista, sobre a qual pequenos bonecos, soldados, ocupam o terreno como num teatro de guerra. L\u00e1 j\u00e1 est\u00e1 a <em>hashtag<\/em> #mundodistopico, bem como #terradegigantes, as quais permitem, claro, leituras diretas e obl\u00edquas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201ctudo absolutamente normal\u201d, t\u00edtulo que marca a <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/B_xNLwTHaxo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">segunda postagem<\/a>, introduz um tom de cr\u00f4nica. Imenso &nbsp;rinoceronte, boneco de pl\u00e1stico, projeta sua sombra, aparentemente sob a mesma luz solar rasante que cria sombras alongadas de pedestres no viaduto do Ch\u00e1 visto do alto em registro de Cristiano Mascaro.<\/p>\n\n\n\n<p>De certa forma as diretrizes do projeto est\u00e3o lan\u00e7adas. Dia-a-dia, o processo minucioso, detalhista e paradoxalmente <em>clean<\/em>, se desenvolve. Captura aqui ou ali leitores, que se articulam ao seu <em>feed<\/em> ou aqueles que os algoritmos aproximam. &nbsp;O prazer r\u00e1pido, o <em>like<\/em> talvez n\u00e3o sejam suficientes e exigem que a s\u00e9rie seja vista por n\u00f3s com mais dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Hantzschel foge aos procedimentos da fotomontagem moderna. Talvez, decorrente da pr\u00e1tica do fotograma, explora interven\u00e7\u00f5es espaciais, articulando objetos, sombras que se projetam, e fotografias de um repert\u00f3rio da fotografia de rua, da \u201cfotografia humanista\u201d da segunda metade do s\u00e9culo passado. Embora use regularmente a hashtag #apropriacao, ele est\u00e1 mais pr\u00f3ximo do conceito adotada por Joan Fontcuberta (<em>La furia de las imagenes, <\/em>2016) de ado\u00e7\u00e3o. Cuidar da imagem, situ\u00e1-la em contexto significativo, o que, de certa forma, parece dar algum sentido maior \u00e0 <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CCHEptnHg7Y\/\" target=\"_blank\">postagem <\/a>feita em 1 de julho, ao agradecer aos que acompanharam a s\u00e9rie, marcada pela foto que apresenta seus \u201ccompanheiros\u201d: soldadinhos de pl\u00e1stico e parte de sua biblioteca pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois aspectos podem ser tomados como cruciais. Primeiro, a rela\u00e7\u00e3o texto e imagem, que parece ter atravessado todos os debates sobre uma visualidade moderna, questionando pap\u00e9is e autonomia dos meios e explorando intera\u00e7\u00f5es, surge agora expandida. Al\u00e9m do t\u00edtulo, as postagens trazem novo tra\u00e7o contempor\u00e2neo: a <em>hashtag<\/em>, eco atual de uma pr\u00e1tica em busca de efici\u00eancia informacional. Aqui, o novo est\u00e1 no modo como uma nuvem de termos tensiona cada imagem, em si mesma fruto de uma condensa\u00e7\u00e3o entre imagens, objetos e interven\u00e7\u00f5es espaciais geradas pelo autor.<\/p>\n\n\n\n<p>O <em>nonsense<\/em> presente na fotomontagem moderna desde a d\u00e9cada de 1920 entre surrealistas e pr\u00e1ticas associadas, est\u00e1 em <em>Covidgrafia<\/em> pr\u00f3ximo da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica como em John Heartfield (1891-1968), autor tamb\u00e9m presente no campo de batalha reconstitu\u00eddo na s\u00e9rie. Sombras, questionamentos \u00e0 normalidade etc: as <em>hashtags<\/em> que se sucedem e marcam o per\u00edodo evocam ainda outro autor cl\u00e1ssico da fotomontagem como Grete Stern (1904-1999), em especial suas obras para ilustrar artigos sobre psican\u00e1lise na revista <em>Idilio<\/em>, nos anos 1940, dirigida a um p\u00fablico feminino.<\/p>\n\n\n\n<p>A men\u00e7\u00e3o a Stern \u00e9 uma boa desculpa para lembrar que a pr\u00e1tica da montagem, da colagem, do <em>scrapbook<\/em> \u00e9 t\u00e3o velha quanto \u00e0 fotografia pelo menos, para mencionar assim um fen\u00f4meno intenso que ocorre na Inglaterra vitoriana entre as mulheres da aristocracia e de estratos sociais m\u00e9dios. Ali, retratos de <em>carte-de-visite<\/em> mesclam-se em recortes com tecidos, flores secas, num <em>divertissment<\/em> que, \u201cinocente\u201d, comenta e registra o espa\u00e7o de poder e jogos de conquista e submiss\u00e3o das mulheres desses estatutos (veja aqui breve nota em <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.fotoplus.com\/duas\/?p=614\" target=\"_blank\">FotoPlus n\u00ba 38,<\/a> jul.2019).<br><br><\/p>\n\n\n\n<p>A fotomontagem moderna politicamente compromissada, em contraponto, parece ocupada pelo masculino. Em <em>Covidgrafias<\/em> est\u00e3o marcas muito pr\u00f3ximas como os soldados de pl\u00e1stico (descendentes diretos de seus similares de chumbo do s\u00e9culo passado a intoxicar seus donos), tra\u00e7o de um mundo masculino sob a \u00f3tica de brinquedos de g\u00eanero. Algo ir\u00f4nico, Hantzschel est\u00e1 submetido, sob outra circunst\u00e2ncia, a um espa\u00e7o de confinamento que ecoa o sal\u00e3o aristocr\u00e1tico em que autores como Lady Filmer (1838-1903) teciam suas narrativas<\/p>\n\n\n\n<p><br>Tecer a narrativa parece aproxima\u00e7\u00e3o oportuna \u00e0s <em>Covidgrafias<\/em>. Como cr\u00f4nica, a s\u00e9rie, em suas imagens e <em>hashtags<\/em>, ecoa, insinua o cotidiano da pandemia, da quarentena e do desgoverno. A imagem, de um passado distante, de Pen\u00e9lope que tece inocentemente de dia e desmancha seu trabalho \u00e0 noite a protelar o inevit\u00e1vel \u2013 que \u00e9 preciso agir \u2013, parece eclodir de certa forma agora. Ir\u00f4nico, que masculino e feminino possam se misturar em tempos de conflito, em que bordar possa ser uma forma adequada para descrever o procedimento \u2013 meticuloso e banal &#8211; \u00a0de constru\u00e7\u00e3o que ocorre em <em>Covidgrafias<\/em>. O inevit\u00e1vel, que \u00e9 necess\u00e1rio agir, corre ao fundo dessas postagens, entre momentos de humor ou sensualidade, no suceder de hashtags em crescendo &#8211; #barbarie #semcomando #desgovernado #tubaina #general #distracao #blacklivesmatter #mentira #pessimismocosmico.<br><br><\/p>\n\n\n\n<p>De certa forma, essa necessidade se imp\u00f5e e parece surgir abruptamente na <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CCG66y-nJxI\/\" target=\"_blank\">postagem n\u00ba 60<\/a>, que encerra a sequ\u00eancia. Sob o t\u00edtulo <em>Intoler\u00e2ncia<\/em>, numa cadeia de <em>tags<\/em> que termina na cad\u00eancia: #intolerancia #asno #burro, o garoto na imagem de Philip Jones Griffiths (1936-2008) arremessa imensa rocha sobre um piano j\u00e1 destru\u00eddo, em meio a um paisagem marcada por destro\u00e7os. Imprecisa, aberta a especula\u00e7\u00f5es, a imagem do gesto, entre violento e l\u00fadico, encerra um processo de reflex\u00e3o e condensa\u00e7\u00e3o visual.<br><br>Alguns tra\u00e7os da s\u00e9rie acabaram por ecoar igualmente na sequ\u00eancia de <em>Covidgrama. <\/em>Nesse sentido, as imagens que exploram interven\u00e7\u00f5es sobre capas de jornais, que trazem eventos de forma mais direta, como as obras <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CA2oU4LHafN\" target=\"_blank\">n\u00ba 7<\/a>, em 31 de maio, ou <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CBOeyhynnqk\/\" target=\"_blank\">n\u00ba 12<\/a>, em 9 de junho, s\u00e3o mais evidentes, comentando como na primeira a marca de 22.047 mortes no Brasil em 66 dias de pandemia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"798\" height=\"725\" src=\"http:\/\/www.fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/hantzschel-2020.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-633\" srcset=\"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/hantzschel-2020.jpg 798w, https:\/\/fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/hantzschel-2020-300x273.jpg 300w, https:\/\/fotoplus.com\/duas\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/hantzschel-2020-768x698.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px\" \/><figcaption>foto: Ricardo Hantzschel (2020)<br><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CCHEptnHg7Y\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">http:\/\/www.instagram.com\/rhantzschel<\/a><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><br>O que v\u00eam \u00e0 frente est\u00e1 em aberto. Uma nova s\u00e9rie \u2013 <em><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CCy0S_Hn0jx\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Encaixes <\/a>\u2013 <\/em>iniciada em 10 de julho parece em articula\u00e7\u00e3o. Explora o mundo exterior, as ruas da cidade. Marcada por perspectivas distorcidas, pontuadas por postes, placas de tr\u00e2nsito, grafites e adesivos, S\u00e3o Paulo surge entre paisagem \u201cem reconhecimento\u201d e paisagem \u201cnova\u201d. Uma cidade agigantada pela perspectiva acentuada, em contra-plong\u00e9e, sob raios de um sol forte, do qual \u00e9 necess\u00e1rio por vezes esquivar-se na tentativa de ver.<\/p>\n\n\n\n<p><br><br><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FotoPlus #52 \u2013 Agosto 2020 Modos de resili\u00eancia entre o privado e o p\u00fablico Fot\u00f3grafo paulistano, Ricardo Hantzschel (1964), um dos nomes mais conhecidos entre os produtores de imagens que fazem uso de recursos de capta\u00e7\u00e3o como o pinhole, as c\u00e2meras buracos de agulha, e de processos hist\u00f3ricos de impress\u00e3o como o papel salgado, al\u00e9m &hellip; <a href=\"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/?p=618\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Ricardo Hantzschel e imagens da s\u00e9rie &#8216;Covidgrafias&#8217; (2020)&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[81],"tags":[79,80,77,48,78],"class_list":["post-618","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-intermidia","tag-covidgrafia","tag-covidgrama","tag-fotomontagem","tag-pandemia","tag-ricardo-hantzschel"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/618","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=618"}],"version-history":[{"count":33,"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/618\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":654,"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/618\/revisions\/654"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=618"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=618"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fotoplus.com\/duas\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=618"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}