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    Ao início!!




    por Ricardo Mendes
    inverno de 1997


















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    Trabalho realizado para as disciplinas de pós-graduação da Escola de Comunicações e Artes-USP:
    Annateresa Fabris
    A VERTIGEM DO OLHAR: FOTOGRAFIA E ARTE NO SÉCULO XX - CAP-110
    José Teixeira Coelho Neto
    CULTURA E SENSIBILIDADE - CBD-016




    Preliminares

       
    "L'idée de dégradation peut paraître morale, issue d'un bourgeois qui regrette l'excellence de la culture passée; je lui donne, tout au contraire, un contenu objeticf, structural: il y a dégradation parce qu'il n'y a pas invention; les modèles sont répétes sur place, aplatis, en ceci que la culture petite-bourgeoise (censurée par l'État) exclut jusqu'à la constestation que l'intellectuel peut apporter à la culture bourgeoise: c'est l'immobilité, la sousmission aux stéréotypes (la conversion des messages en stéréotypes) qui définit la dégradation."
    (BARTHES, Roland. La paix culturelle. Publicado originalmente em Times Literary Supplement, 1971)

    Ao longo do primeiro semestre de 1997, os encontros semanais da disciplina Cultura e sensibilidade abordaram o difícil caminho da análise das balizas da sensibilidade na cultura contemporânea. E mais ainda, sua eventual especificidade. Este ensaio procura aproximar alguns dos temas levantados com questões da área de fotografia contemporânea abordadas na disciplina A vertigem do olhar.


    Para estabelecer um patamar inicial desta apresentação decidiu-se apontar alguns aspectos a priori que sinalizam o fundo sobre o qual se inserem os comentários. Tem-se por horizonte mais imediato - daí a citação inicial - de um sentimento de crise cultural nas últimas décadas. Sensação que atravessa persistentemente episódios diversos com manifestações peculiares.

    Os pontos aqui apresentados são assim uma posição perante "uma" crise da cultura, um "mal-estar" da civilização ocidental. A matriz proposta considera como tema básico as mudanças estruturais na relação entre cultura e sociedade contemporânea.

    Um desses aspectos é a apresentação da cultura como esfera autônoma - de autonomia crescente potencialmente - em detrimento do segmento de produção econômica. Sob este ângulo, vai interessar ao ensaio a ocorrência ao longo do painel cultural das últimas décadas de manifestações diversas que procuraram associar vida e arte - a vida como arte. No caso a ser apresentado, na cultura norte-americana da segunda metade do século, cristalizada em situações tão diversas como os movimentos hippie ou punk. Ou ainda através de "culturas do desejos" hedonista ou consumista.

    Aspecto peculiar da produção de cultura deste século é a presença das novas mídias técnicas - como o cinema, a fotografia, o vídeo... - como realidades mediáticas essenciais da expressão cultural. Intermediação que, considerando a dimensão e sofisticação progressiva das tecnologias de comunicação, acabaram gerando e gestando-se dentro de um mercado. O desenvolvimento de um mercado cultural diversificado e complexo tem conseqüências sobre as formas de produção e consumo que não permitem uma avaliação "pacífica" de produções situadas na fronteira entre manifestações tradicionais e novas formas de expressão como a fotografia exemplifica com perfeição.

    Último ponto dessa matriz de trabalho é o surgimento de um novo conceito da relação entre indivíduo e sociedade mediática baseado não mais no fenômeno dos mídias para as massas, mas o reconhecimento de grupos sociais determinados (as tribos, entre outras denominações) como forma possível de intermediação de indivíduo(s) e sociedade(s).

    Em resumo, os pontos definem as linhas que estão subentendidas ao longo do ensaio:

    • cultura como esfera autônoma,
    • mídias técnicas como realidade mediática da expressão cultural,
    • mercado cultural como substrato efetivo, e
    • a busca de um novo sujeito , busca de novas formas de individuação.

    Estes aspectos estão relacionados a dois conceitos centrais: Arte e Cultura (1), frente aos quais foram adotados alguns posicionamentos que estão resumidos a seguir.

    Primeiro, a cultura é um fenômeno central nas sociedades ocidentais contemporâneas. Sociedades estas, que definiam - solidariamente - até décadas atrás a arte como veículo de transmissão de sensações e sentimentos, de vivência íntima, de transcendência. Na Situação traçada pela matriz exposta anteriormente, a obra de arte passa a perder esse estatuto, gradativamente transferido para outras esferas da cultura.

    O local da Arte, nos últimos cem anos, relativiza-se. A obra de arte como meio para busca de harmonia, revelação e contato com o sublime, é um conceito que se desloca rumo à cultura. Seria possível argumentar que as manifestações que buscam a vida como arte são sinais dessa transição do foco de transcendência de uma esfera de ação para outra.

    As formas de produção artística refletiram neste século o excesso de funções e expectativas atribuídas à Arte. Os últimos trinta anos apresentaram um painel artístico tão díspar quanto os cem anos anteriores. Por um lado, dessa situação parece resultar que a arte é hoje um mídia entre outros. Nova forma de expressão, canal de comunicação individual e grupal. Por outro lado, antes de tornar-se uma arena para especialistas - como falaciosamente costuma-se caracterizar a produção em artes visuais - as diversas formas de produção artística parecem voltadas a um reflexão mais internalizada, cujos objetivos imediatos não são mais a busca do sublime, mas a reflexão sobre sua materialidade, seus limites de ação.

    O segundo aspecto - relevante para este ensaio - trata da relação intranquila entre arte e fotografia. A expansão da presença deste mídia acabou em parte sobrepondo-se à questão da natureza artística do suporte. Nem por isso eliminou-a. Ainda mais considerando que a mídia fotografia não apresenta um padrão definido quanto a sua unidade formal.

    Em verdade, muito da historiografia deste mídia preocupou-se mais em registrar a conquista de espaço na cultura contemporânea para a fotografia, deixando de ater-se à questão vital do local das artes visuais nessa sociedade. O isolamento entre os diversos núcleos de produção como o fotojornalismo ou a publicidade, disputando palmo a palmo os lugares de primazia de geradores de imagens para a sociedade contemporânea, manteve essa questão à distância.


    Estes aspectos nortearam a decisão de aproximar a discussão apresentada nas duas disciplinas, através da análise da produção de um dos fotógrafos ao redor da qual tais questões parecem manifestar-se com exemplaridade:


    robert michael mapplethorpe (1946-1989)

    A proposta de trabalho apresentada pela disciplina A vertigem do olhar não foi um tema aceito de forma pacífica. Em termos pessoais, não era um fotógrafo que apresentasse algum interesse mais contundente. Era possível entender sua importância na produção norte-americana, vendo-o porém mais como fenômeno cultural do que artístico.

    A supervalorização pela mídia cultural ao longo dos preparativos para a retrospectiva no Museu de Arte Moderna tornava difícil a escolha de um recorte. Porém, os próprios veículos de difusão do evento permitiram observar através da banalidade da adesão ou da indigência crítica - manifestações equivalentes de uma mesma dementia - que a produção de Robert Mapplethorpe poderia ser um meio para avaliar a situação da arte e cultura no ultimo quartel do século em horizontes mais amplos que a cultura norte-americana.

    A palestra do curador do evento, Germano Celant, bem como seu texto The satyr and the nymph: Robert Mapplethorpe and his photography para a grande mostra itinerante realizada entre 1992 e 1996 (2) - deixavam evidentes o estado confuso dessa relação.

       
    Multiple Eros

    Eros rules the world, and Robert Mapplethorpe's photographs glorify the power and proliferation of eros, but never identify it as the unique and univocal dominion of either sex, male or female. (...)

    Through his photographic oeuvre, Mapplethorpe crystallizes the utmost investment of sexual drives in people and things, he travels through the vertigo of the senses, from eyes to genitalia. His journey allows only the free and circular union of human beings, a togetherness that can broaden and surpass the final concept of eroticism. What he portrays is the exuberance of an art of love which, in aiming at pleasure per se, ignores any difference between love and perversion, active and passive, dominant and dominated, good and evil. It goes beyond contraries and transcends distinctions, because it is interested in moving through the gaps and hiatuses, producing those extraordinary surprises of personal and sensual events that are called erotic."
    (CELANT, 1992, p.11 - parágrafos iniciais)

    O furor interpretativo parece revelar o papel da mídia cultural e de seus agentes críticos na definição de um locus para o artista no quadro atual. O refinamento do texto de Celant e seu domínio no manejo da língua inglesa evidenciam a medida do investimento sobre Mapplethorpe e quanto beira o proselitismo esse exercício crítico.(3)

    Essa abordagem - com "investimento" - parece contrapor-se a uma imagem pública criada pelo próprio fotógrafo enquanto artista intuitivo. O artigo de capa da publicação American Photographer, de janeiro de 1988, exemplifica com precisão essa construção. O texto da chamada, na abertura da página 3, comenta a inesperada imagem de capa, que mostra uma produção de moda para um cliente italiano, apresentando um foto colorida de uma modelo numa solução pouco comum no conjunto de sua produção. Fotógrafo conhecido por seus elegant black-and-white still lifes, portraits, and male nudity, tem essa imagem comentada pelo gerente do seu estúdio: 'It´s so straight forward, so simply Robert in its presentation and use of drama´. Em resposta a isso, prossegue o articulista: Who are we to argue? Indeed dramatic conviction and the art of being ´so simply Robert´are very much a part of the Mapplethorpe story...


    los enanitos suefren de vértigo

    A mudança do locus de centralidade da arte na sociedade contemporânea, substituído pela cultura, é manifesto no texto de apresentação da retrospectiva de Mapplethorpe no Whitney Museum of American Art em 1988 escrito por Tom Armstrong, representante daquela instituição. Aqui é clara a zona indistinta entre arte e cultura, numa atitude amplamente disseminada na atualidade. O curto texto sinaliza o estatuto da fotografia no universo museográfico norte-americano, falando do mídia como manifestação de cultura e fundindo os conceitos de arte e cultura.

    Armstrong destaca que o museu não coleta e exibe fotos ativamente, mas acrescenta:

       
    ...the work of certain photographers is so insigthful, so allied to the rhytmus of our times, that it is essential to incorporate their art into the musem´s programs without regards to medium.

    Este ensaio procura entender essa inserção. E justisfica a relevância do debate sobre a produção de Robert Mapplethorpe para análise do espírito do tempo a partir dos seguintes aspectos:

    1. o papel de parte de sua produção frente a uma cultura gay,
    2. a centralidade dessa cultura gay na quadro cultural contemporâneo (4) e
    3. a importância de Mapplethorpe daí decorrente como um fantasma de seu tempo, trágica situação em que surge mais como ícone cultural do que autor.


    Um dos pontos que tangenciam a produção de Mapplethorpe está ligado a sua expressão como manifestação da cultura gay norte-americana. É esclarecedor para posicionar a forma de estruturação desse segmento recorrer a alguns artigos de Uruguay Cortazzo que procurar contrapor uma cultura gay moderna centrada na visibilidade a outra voltada para a dissimulação.

       
    La cultura gay moderna, por el contrario, ha hecho de la autenticidad sexual, entendida como transparencia, exposición y hasta exhibicionismo el nuevo núcleo central del estilo.

    ...pueden llevar a la pregunta de si ´visibilidad´ es necesariamente ´autenticidade´ y, luego, de sí ese excesivo realismo no irá en detrimento del placer que produce lo ambiguo y evasivo de la cultura homosexual tradicional.

    De todos modos, y sea lo que fuere, es innegable que 'lo homossexual' se está transformando ya en un símbolo productor de reflexión para la sociedad toda: por su porfiada resistencia que proclama la legitimidad y libertad del deseo individual frente a toda compulsion restrictiva, pueden entreverse allí los fundamentos de una nova concepción de la persona social. Una redefinición de sus tradicionales lazos con la comunidad se avizora - el todo social integrando todas las diferencias y las diferencias, a su vez, fudamentando la existencia del todo - ligándose a políticas que van desde los anarquismos a las democracias progresistas, en una nueva ofensiva, más profunda esa vez, contra los autoritarismos patriarcales homogeneizantes de izquierdas y derechas.
    CORTAZZO, Uruguay. Pero... ¡¿y existe una cultura gay?!. JAQUE, Montevideo, (135): 24, [1987]

    A posição de Cortazzo é adequada pois expande a questão para além da simples visibilidade social. Antevê a possibilidade de políticas sociais baseadas na interação dessas nova tribos. No quadro atual, a convivência com o outro - entendido aqui como conjuntos internos da sociedade unidos por laços de base diversificada - dá-se não mais como situação de exceção mas de forma regular e ordinária. Esse processo de implantação de novas dinâmicas sociais de comunicação e regulação não é certamente indolor e uniforme.

    Por outro lado, essas dinâmicas têm como fundo sociedades cujos mecanismo de informação passaram por mudanças traumáticas. Muito do "mal estar" e euforia contemporâneos - um paradoxo esquizofrênico - pode ser atribuído a uma premência temporal, uma aceleração informacional, implantada por esses mídias no processo social.

    O impacto sociocultural destes novos veículos é comentado em alguns dos seus aspectos por Javier Marías no artigo A onipresença do horror (1996). O autor comenta o sentimento contemporâneo de hiperestesia informacional, ao analisar a falta de prática social para manejo de informação na forma atual, tomando como exemplo as mudanças na vida cotidiana ocorridas nas últimas décadas.

       
    Essa pessoa de 80 anos teve que alterar no decorrer de sua vida sua percepção da realidade em maior medida que incontáveis gerações anteriores ao longo dos séculos, e o certo é que já há bastante mérito em que o homem contemporâneo não esteja ainda mais desajuizado do que está e ainda guarde algo da memória, que não tenha apagado inteiramente um passado recente que, do ponto de vista dos efeitos psicológicos tem que lhe parecer tão remoto quanto - insisto no exemplo - o século 5 a um indivíduo do 19.

    Mas há um fator concreto do qual mesmo assim se costuma passar por cima e que é ainda mais grave e decisivo. Do meu ponto de vista, a maior mudança entre todas é a acontecida na relação dos indivíduos com o horror.
    (...)
    A capacidade do ser humano para suportar a violência e a atrocidade não carece de limites, ainda que somente seja porque nunca antes lhe foram visíveis tais excessos em todos e cada um dos dias de sua existência. Agora sim, e isso é uma mudança tão crucial, uma modificação tão brutal na percepção do outro - que hoje é sempre bestial em uma ou outra encarnação - seja sérvia, liberiana, ruandesa ou somali -, que de novo aqui o assombroso é que a este ser humano ainda lhe reste algum vislumbre de piedade, alguma capacidade de estremecimento, algum assomo de solidariedade.

    Ainda que o fenômeno social Mapplethorpe pareça periférico a esses temas, ele é atravessado por tais vetores. Seja enquanto imaginário gay, seja em relação ao reposicionamento da tríade arte-cultura-sociedade. Seja enquanto produção artística situada entre referências visuais de origens diversas, seja como persona na mídia.


    os anões possuem um sexto sentido que lhes permite se reconhecer

    A produção de Mapplethorpe dá-se sobre um pano de fundo complexo e embaralhado. O estatuto e as práticas artísticas nas décadas de 70 e 80 estão em perturbação, situação na qual os posicionamentos ocorrem não mais seguindo a noção de movimentos artísticos. Seja enquanto vanguarda, seja como "tradição".

    O conceito de arte funde-se gradativamente ao de cultura. Obras são produzidas através de deslocamentos de contextos e justificadas enquanto representação. Entende-se assim a ocorrência de proposições que pregam a expansão de uma sensibilidade artística sobre a esfera cotidiana - a vida como arte. Essa atitude - manifesta em diversas correntes - leva a uma explosão do potencial representacional de novos veículos e sua incorporação como prática artística.

    A auto-representação de Mapplethorpe como artista intuitivo, sua magia, parece em sintonia com o espírito rimbaudiano que cerca alguns elementos da cultura popular norte-americana dos anos 60. Em especial no campo da música, como o expresso pela companheira do fotógrafo Patti Smith, presença que pode ser detectada ainda em outros segmentos como os movimentos hippie ou punk. É evidente a adoção da máxima da busca da iluminação pelo excesso, em que a inserção, o investimento, na prática cotidiana justifica os resultados.

       
    Hardly an apologist, Mapplethorpe is proud of having exposed his sexual adventures through his photography. ´Let´s face it. Most photographers are living their lives vicariuosly by taking pictures´. He reasons: ´When they get into sex or pornography it´s often a sort of cover-up for their own sexual inactivity or inadequacy. They´d rather do it through the camera and sublimate their desires in order to take pictures´. In short, Mapplethorpe believes himself exempt from such venality because of the openly confessional nature of his work - an attitude as Catholic as it is Rimbaudesque.
    (AMERICAN PHOTOGRAPHER, p.51)

    Esse posicionamento - vida como arte - gera problemas complexos. Um deles, a análise contextualizada sobre a qual existe o risco da justificativa sociológica e o da proposição de uma arte funcional, estritamente representacional. Outro, utilizando a questão da cultura gay como exemplo, resulta na identificação do artista como "antena da raça", como ser privilegiado.

    A adesão dos grandes mídias à tese do artista como agente social com locus privilegiado parece ser uma constante na produção das últimas décadas. Gesto que desconsidera o grave fato de que o artista em princípio esta inserido num sistema complexo de produção e distribuição de obras com suas contingências(5).

    A série sobre sado-masoquimso é neste contexto um bom exemplo para avaliar essa interpretação. As citações seguintes indicam as dificuldades de adotar de forma direta a relação contexto-artista-obra.

       
    É tolice e ingenuidade afirmar, como se tem feito repetidamente, que os aspectos desagradáveis ou dolorosos dos gostos sexuais de Mapplethorpe refletem a injusta opressão de uma sociedade homofóbica Isso reduz sua obra a um ativismo social-assistencialista tedioso, de um tema só: aprisiona-o no contemporâneo; destrói-o como artista. Eu diria, ao contrário, que as repressões sexuais severas , e ainda assim altamente estimulantes dos sentidos, do catolicismo deram a Robert Mapplethorpe sua visão especial; essas tensões e limitações permitiram-lhe olhar diretamente dentro da realidade sexual universal. Ele viu e aceitou a crueldade e agressão em nossa natureza animal, nossa ligação não evoluída com o passado pagão e primevo. Mapplethorpe não era um liberal. O sadomasoquismo não é liberal. É rigorosamente hierárquico e friamente ritualístico. Em minha análise da história, o sadomasoquismo sempre retorna quando os códigos morais e as instituições sociais se enfraquecem. Retorna porque está em nossa natureza mais profunda. Os defensores liberais de Mapplethorpe não o entendem. A obra dele é um escândalo para todos os ideiais humanitários progressistas deles.
    (PAGLIA, p.55-56)

    Sob este angulo é oportuna a crítica de Ben Lifson, no artigo The philistine photographer: reassessing Mapplethorpe (THE VILLAGE VOICE, 09.04.79) a respeito da mostra apresentada na Miller Gallery (NY) em março de 1979:

       
    Na verdade, quando volto a pensar naquela mostra, acho que o melhor foto de Robert era a do pau, com o saco e todo aquele sangue - uma observação contundente sobre algo que a maioria das pessoas desconhece, mas que obviamente existe. Era corajosa, antiglamourosa e transmitia uma sensação honesta. As outras fotos me dão a impressão de terem sido criadas por alguém que teme o que a nossa imaginação poderia fazer do tema, e quer impedir o funcionamento da imaginação. É como se Robert não quisesse nos dar o que sabia. Em ´Civilization and its discontents´, Freud fala sobre artistas que descem ao que chama de seu turbilhão´ significando o ínconsciente´, e voltam para nos contar o que existe lá. Robert entrou no turbilhão, sem dúvida, mas voltou com um elegante cartão-postal. ´Me divertindo muito, gostaria que voces estivessem aqui. Amor, Robert´(6)
    (In: MORRISROE, p.244-245)

    O registro - como é vista essa série - da cena sado-masoquista americana surge permeado por uma traço essencial na produção de Mapplethorpe: o fetiche. Associação que 'borra' qualquer ação de inspiração documentária. Atitude que não é ocorrência única em seus trabalhos e pode ser identificada desde os primeiros momentos de sua formação.(7)

    Este aspecto era evidente no interesse do fotógrafo por uma simbologia esotérica. A mostra A roupa como arte, organizada por Stanley Amos em 1970 no Chelsea Hotel (NY), incluia uma obra de Mapplethorpe constituída por uma jaqueta com bordados de máscaras mortuárias. São usuais no período as referências à produção pelo artista de objetos como colares com caveiras.

    É curioso como surge um perfil do fotógrafo - a partir de críticas na imprensa e catálogos, no qual cohabitam o papel de documentarista de uma cena de violência sexual e uma personalidade pública apresentada como esteta refinado. De qualquer forma, imagens entrelaçadas por uma noção de artista intuitivo, sensitivo.

    Outra associação peculiar é apresentada por Patrícia Morrisroe, autora da biografia do artista, que insistentemente molda um discurso sobre o interesse de Mapplethorpe pela sujeição do modelos, por relações pessoais de submissão(8). No entanto, mantendo alguma proporção, a questão de representações de homens submissos é uma chave importante na obra.

    O artigo citado publicado em 1988 em AMERICAN PHOTOGRAPHER já comentava a ousadia do fotógrafo em apresentar corpos sobre pedestais. Tendo como pano de fundo a temática do politicamente correto é claro o alcance da abordagem.

       
    O que havia de diferente, e conseqüentemente de mais perturbador, no trabalho de Mapplethorpe, era que em vez de uma mulher amarrada.... ele tinha a audácia de virar a mesa e revelar todo um universo de homens submissos.
    (MORRISROE, p.171)

    Considerando os estudos de nus, algumas questões ficam amplificadas. Embora a cultura gay pareça construída tradicionalmente a partir do prazer físico, do hedonismo, as imagens de Mapplethorpe, de forma diversa da tradicionais imagens da indústria pornográfica, não parecem manipular o erotismo de forma adequada. O correto talvez seja apontar que não é este tema o foco de sua intenção.

    O universo desses corpos é plenamente estático. Parecem buscar um momento de plenitude pré-orgasmático, como se ao tentar apresentar uma determinada situação, o fotógrafo tivesse dado um passo para trás - no tempo. Não existe contato entre os corpos.

    Falar que esses corpos se oferecem ao espectador é problemático. E talvez este gesto só tenha sido tratado por Mapplethorpe no autoretrato de 1975 comentado por Barthes em A camara clara. A diferença plausível entre essas imagens e a pornografia, aproximação que não pode ser evitada, está em que Mapplethorpe configura uma plenitude em essência, enquanto pornografia persegue a plenitude em ação.

    Morrisroe cita o crítico George Stambolian a esse respeito:

       
    - Um bocado de artistas gays naquela época estava se movimentando constamente numa ponte lá e cá entre as tradições clássicas da arte grega e a pornografia - disse George Stambolian. Robert tentava mesclar estas duas tradições em sua arte e até em sua escolha de galerias.
    (MORRISROE, p.241 e seguintes)

    A noção que o tratamento formal de Mapplethorpe cancela a idéia de perversão, em relação ao temas sado-masoquistas, está presente em quase todos os catálogos e em vários artigos. Celant partilha dessa posição no texto para a retrospectiva itinerante realizada após a morte do fotógrafo (CELANT, 1992, p.14), como também o entrevistador do artista no texto publicado em American Photographer (1988), mencionado anteriormente.

    A menção sobre a tradição clássica grega permite comentar o tratamento escultórico em suas imagens e a inclusão tautológica de esculturas. Antes é necessário apontar este traço distintivo na produção do fotógrafo: o diálogo entre representações do corpo, seja através das referências à história da fotografia, seja pela presença radical da fisicalidade das esculturas.

    O surgimento das esculturas na produção fotográfica do artista ocorre em sua primeira exposição neste suporte em 1974:

       
    A peça mais ambiciosa da exposição era uma série de quatro auto-retratos nus justapostos contra duas fotografias de escultura clássica. Ela apontava o caminho para a futura obsessão de Mapplethorpe com o relacionamento entre escultura e a forma humana, e as possibilidades de utilizar a câmera para cinzelar o corpo. (MORRISROE, p.154)


    É possível falar em supercorpo nessa produção? Talvez não seja tão simples chegar a uma resposta satisfatória.

    A cultura norte-americana entre os anos 60 e 80 apresentou uma expansão crescente no interesse pelo corpo. Desde os anos 20 houve uma progressivo ganho na visibilidade dos corpos através da prática esportiva. Nas quadras ou nas praias, o corpo se delineava. A cultura hippie dos anos 60 pregou uma libertação mais agressiva. Os anos 70 viram conviver a prática crescente de esportes radicais e investimentos pesados em produtos para manutenção e aprimoramento do corpo.

    A década seguinte, porém, foi atravessada por vetores díspares. Por um lado, a exponenciação da preocupação com o corpo em setores tão "distintos" como bodybuilding e saúde/alimentação. Por outro, a presença da AIDS em choque flagrante com a situação estabelecida pela revolução sexual dos anos 60.

    O que nos apresenta Mapplethorpe? Um mundo de modelos estáticos, estereótipos neoclássicos aplicados ao corpo negro, o nu subordinado à convenção, imagens reunidas sob uma ótica tocada pelo fetiche. No entanto, não se pode falar numa completa adesão do fotógrafo. A presença do corpo negro masculino é dominante, tendo em vista o fundo da cultura americana de segregação étnica. A imagem feminina surge em menor grau, mas com subversão de padrões como no caso de Lisa Lyon; em contraponto à fragilidade do retrato do ator Arnold Schwaznegger, conhecido então como halterofilista premiado.

    Não são sinais suficientes para opor-se à leitura de constituição de um supercorpo. Mas é possível considerar esta abordagem como secundária ao conjunto. A ênfase no tratamento escultórico, a procura pelo apelo tátil, a plenitude da apresentação física dos corpos parecem buscar mais uma "apresentação". Ingrid Sischy em seu texto A society artist (1988), para a retrospectiva no Whitney Museum, usa o termo physical event para caracterizar essa presença(9). Mas o que visa essa estratégia?

    Tendo a considerar os nus em Mapplethorpes como profundamente "tocados" pela presença da AIDS nos anos 80. Se o fotógrafo utilizou a seu favor e conveniência a questão de proximidade com uma cultura gay, em nenhum momento porém pareceu ter sido sensibilizado pela expansão da nova síndrome. No entanto, embora alheio conscientemente, vejo essas fotos como imagens triunfantes. Produção tolerada e difundida socialmente como desvio compensatório das contradições impostas com radicalidade pela doença em termos comportamentais(10).

    Por outro lado, a adesão a padrões tradicionais nessas imagens ocorre menos no que diz respeito ao amor à ordem ou a busca de referências clássicas. A adesão é externa, tendo lugar na forma pela qual Mapplethorpe constrói sua imagem pública como artista nos mídias e no sistema de arte local.

    O panorama estático desses corpos, a produção de imagens em estúdio eliminando qualquer intromissão externa, a busca pelo controle parecem revelar a intenção principal de retratar modelos ideais e não indivíduos (11). Esse universo não realista, não fenomênico, tentaria assim construir séries de arquétipos. Proposição que revelaria como o fotógrafo passa ao largo de questões que lhe são contemporâneas como a do simulacro. Em Mapplethorpe, tudo é pleno simulacro, sem distância crítica.

    O conjunto estático e rígido parece uma solução interna para estabelecer oposição ao universo de difusão explosiva de imagens pornográficas na sociedade norte-americana. Esse traço distintivo frente à pornografia que busca um "realismo de ação" surge assim como estratégia para diferenciação. Perante a hiperestesia do abismo do erotismo a imagem parece solidificar-se no umbral que antecede a solução da plenitude física. Gozar seria a extinção da tensão, quase a temer que nada houvesse além dessa Situação(12).

    Seria possível avançar seguindo esta estratégia? Mapplethorpe - acreditando no perfil traçado por Patricia Morrisroe e nos catálogos como artista intuitivo e veículo de expressão do seu tempo - não partilha da exarcebacão de Witkins, ou da análise crítica de Cindy Sherman, B. Kruger ou S.Levine. Nem pode ser aproximado ao projeto "documentalista" de Nan Goldin. Não há - pensando nos casos mais grotescos das imagens sado-masoquistas - nem uma identificação camp (à exceção do casal Brian Ridley and Lyle Heeter, 1979); nem o fascínio pelo grotesco de Arbus.

    Sinto possível, porém, aproximá-lo de A. Sanders (em outro continente, em outra época) e sua monumental tentativa de elaborar um quadro do homem no século XX, em que a identidade do indivíduo não parece plausível, apenas a do grupo. Interpretacão que surge com coerência ao contemplarmos imagens como Marty & Hank, (1982) (CELANT, p.191) na qual dois homens praticam felação. Trata-se mais de um teatro de apresentação do que um registro com qualquer relação com a produção das revistas pornográficas.

    A produção de retratos de personalidades não me parece de maior importância. Revela certamente muito da figura pública do artista, suas expectativas de inserção social (caso concordemos com a imagem atribuída a Mapplethorpe). Em oposição a série de nus apresenta as únicas ocorrências evidentes do banal, da cor local, ainda que sob controle rigoroso. São raros os achados como a ironia do retrato da escultora Louise Bourgeois que possam opor qualquer tensão a um uso extremado da pose.


    Os procedimentos estilísticos não parecem distintos na série sobre flores, prova de coerência interna da obra de Mapplethorpe. Embora vista usualmente como uma solução de mercado procurando fugir da imagem de fotógrafo voltado sobre a cena gay e a associação com violência, a opção pelas imagens de flores transformou-se numa armadilha.

    Tema usual desde meados dos anos 70 na produção do artista, as flores já aparecem com ênfase na mostra organizada em 1977 por Holly Solomon. Morrisroe cita uma declaração da marchand que afirma que procurou então apresentar as imagens de flores como um desvio.

       
    Elas (as pessoas) viam Robert como um cara ´leather´ e tê-lo fazendo flores era chocante, mais chocante do que a coisa pornô. Aquilo era esperado dele, as flores não.
    (MORRISROE, p.208)

    A biógrafa cita ainda declaração de Sam Wagstaff de 1984, em que comentando a aversão pessoal de Mapplethorpe ao uso de flores como presentes fica manifesto a associação deslocada (13) entre flor e perversão que teve lugar:

       
    Hoje pode-se dizer, ele ainda cospe nelas, mas com sua Hasselblad, ou faz com elas algo de perverso em que ninguém parece ter pensado antes.
    (MORRISROE, p.207)

    As imagens de flores não parecem ser vistas com consenso quanto a essencialidade ou participação acessória na obra do fotógrafo. Posição expressa com clareza por C.Paglia:

       
    Rochelle Gurstein descarta as fotos de flores de Mapplethorpe como, para uma minha expressão, convencionais. Concordo inteiramente. Acho as fotos de flores deles insípidas, formuláicas e sem inspiração, comparadas com os estudos ameaçadoramente túrgidos e autenticamente sexuais do mesmo tema por Georgia O´Keeffe. Mapplethorpe é timido demais nesse ponto. Por coerência com seu outro trabalho, devia dar-nos verdadeiras fleurs du mal, flores venenosas, saídas direto de As avessas, de Joris-Karl Huysmans, com aquele jardim de estufa fervilhante, primal
    (PAGLIA, p.53)(14).

    Mapplethorpe, com certeza, é um dos responsáveis - por sua posição na mídia e produção - pela recuperação deste gênero de natureza morta, que ocorre a partir dos anos 70. Embora este formato tivesse mostrado nos anos 60 sinais de exaustão até nos nichos tradicionais dos calendários comerciais, há muito estava ausente das principais correntes de artes visuais. Os anos 70 presenciaram uma recuperação dessas imagens como tema artístico e como decoração segundo estilemas muito próximos ao adotado por Mapplethorpe. O universo da decoração de interiores, de forte influência americanizada, teve na produção de posteres desta categoria de imagens uma frente de expansão.

    Em Mapplethorpe, essas fotos aparecem, como fala Richard Howard no catálogo da retrospectiva do Whitney em 1988, associadas evidentemente a uma conotação masculina devido à sua conotação sexual. Tratamento que não pode ser apontado como marca original do fotógrafo, não neste momento, mas como traço da coerência interna de sua produção. Busca de apelo tátil, repetindo a expressão, associada à presença de exemplares em esplendor físico ecoam apenas alguns procedimentos da série de nus. Ambas as séries expressam um elemento construtivo de grande intensidade, abortando qualquer possibilidade de identificação das flores como manifestação do natural em sua obra.

    A série das flores partilha com outro conjunto, de menor ocorrência na produção de Mapplethorpe, o de retratos de crianças, o fato de introduzirem em sua obra símbolos tradicionais da transitoriedade da vida. Ambos estão ainda associados ao tema da inocência e por deslocamento ao de continuidade da vida.

    No entanto, as imagens de crianças parecem escapar a uma aparente lógica interna da obra. Note-se, curiosamente, a inclusão regular dessas imagens nos livros e catálogos. As declarações do fotógrafo sobre este conjunto são contudo raras e contraditórias. Ora destaca a carga sexual existente na vida das crianças, ora descarta a produção por seus resultados fracos.

    A mostra realizada no MAM inclui quatros retratos, que parecem ter relações enviesadas com o conjunto, em especial por questões de montagem. É o caso de Rosie, (1976) em que jovem garotinha apresenta seu vestido levantado exibindo o púbis, exposto lado a lado com fotos de nus masculinos. Igual tratamento dado no catálogo Ten by ten, parecendo evidenciar mais uma procura pelo escândalo por parte dos curadores. Outros retratos como Magnus Bischofberger (1985), fantasiado de pirata, ou Sam & Max (1981), plenamente encenados, trazem de forma parasitária alguns procedimentos das demais séries, sem porém qualquer resultado efetivo.(15)



    O que há de relevante - em minha visão - na obra de Mapplethorpe é a capacidade de construção, o senso de composição associado a um universo visual de coerência temática e estilística. Esta interpretação justifica a escolha do título do ensaio composto por três imagens.

    A caveira enquanto expressão final da materialidade corpórea e proximidade ao tema do nu como exposição máxima do corpo, símbolo da permanência e irônica referência à escultura e à cultura clássica. O ícone funde conceitos como fetiche, corpo e escultura. Condensação da busca de identificação de uma estética gay com uma tradição clássica duradoura. Por fim, irônico fetiche onipresente em várias fases da produção de Mapplethorpe como em seus colares e o trabalho com o crânio de seu macaco de estimação apresentado no Pratt ou os autoretratos da fase final(16).

    A flor condensa a noção de transitoriedade, complementação simbólica do esqueleto. Como aponta Cirlot em seu Diccionario de simbolos, a imagem da flor é identificada como representação arquétipica da alma.

    Por fim, a estrêla (17), presente em imagens diversas como no autoretrato com metralhadora e como objeto isolado - Star with frosted glass (1983) revela aqui a chave final desta abordagem sobre a produção de Robert Mapplethorpe. O do seu reconhecimento antes como artista plástico e não como fotógrafo, foco mais adequado para enquadramento de sua produção.

    São estas as três imagens finais da montagem paulistana. Ao fundo do salão, três variações desses ícones estão presentes. O retrato ou natureza morta que mostra um crânio (e ironicamente creio que seja mesmo um objeto metálico na forma de crânio, uma quase escultura), o objeto star with frosted glass (1983) e ao centro um vaso com flores. Qual a leitura proposta pela curadoria? Ela é solidária com essa interpretação? Talvez, embora aqui alimente-se perversamente da referência à morte do fotógrafo. Isto é mais evidente na flor que ergue-se sobre excepcionalmente longa haste e então ao penetrar na área de sombras dobra-se e aponta seu centro para baixo. Esse movimento de ascensão e queda é reforçada pela oposição da haste frágil com o vaso pequeno e pesado aparentemente envolvido por uma folha de papel que parece dobrar-se sob o peso do conjunto (18).

    O senso de construção de Mapplethorpe é reforçado por alguns tratamentos na composição e seleção de objetos. O mais evidente está associado ao gosto pela escultura - a teatralidade. As referências ao repertório formal da escultura clássica, a presença física das mesmas, o recurso da pose rigorosa e extática caminham na busca desse teatro de representações.

       
    I´m trying to make sculpture without having to sculpt... I am looking for perfection in form. I do that with portraits, I do it with cocks. Ido it with flowers... I am trying to capture what could be sculpture. It seems archaic to make sculpture today. It doesn´t make sense in contemporary society, I´d rather do it with a camera
    (Robert Mapplethorpe. EAST VILLAGE, NY, apr.1983. Artigo citado em: CELANT, p.59)

    Sua produção por objetos, pouco presente nos catálogos mas evidenciada com maior destaque na preocupação com montagens para fotos, trazem uma faceta importante para uma visão equilibrada sobre a obra de Mapplethorpe. A opção pela produção em fotografia, com menor difusão das imagens-objetos, não esconde o senso de equilíbrio no uso de materiais e na produção de obras híbridas.

    Com certeza, a sincronia do aparecimento do mercado de fotografia artística no contexto americano e o envolvimento intensivo de Mapplethorpe como artista e colecionador, além da proximidade de curadores e colecionadores como Sam Wagstaff, apresentou aspectos positivos para sua carreira. Entre eles, uma visão em perspectiva da produção fotográfica americana e européia deste século, o que reforçou a formação em artes de Robert (19). No entanto, resultou aparentemente no abandono de uma produção de objetos com ou sem recurso da fotografia. Ao longo da década de 80, o artista produziu algumas versões de fotos com montagens especiais que denotam a permanência ainda que residual da prática. Á título de exemplo, veja Panhead and flower, exposto na retrospectiva no Whitney Museum, cujo passepartout complementa com superfícies pretas e bege a imagem preto e branca. Outro exemplo é o retrato de Philip Johnson em sua versão díptica, com imagens similares, das quais uma é recoberta por uma camada fina de tinta.

    Reduzida quase a uma "noção de moldura", a um enquadramento muitas vezes acessório, ainda assim cristaliza-se em soluções cuja integridade é essencial a obra. É o caso do conjunto Easter Lilies and mirror, de 1979, que apresenta quatro imagens preto e branco de flores, posicionadas em cruz, tendo ao centro um espelho que reflete o observador. Solução muito próxima a adotada em Bill, New York (1976-1977).


    Finalizando este bloco, voltemos a abordar as relações entre a cultura gay contemporânea e a produção de Mapplethorpe que certamente estendem-se além das simples imagens sado-masoquistas, mas enlaçam em feixes paralelos pontos de identidade como a imagem do indivíduo como expressão do seu tempo, artista sensível, e a eleição de ícones culturais.

    E Mapplethorpe representou uma dessas edições, que funcionavam evidentemente como cimento social para o grupo. Morrisroe cita a esse respeito comentário de George Stambolian durante curso sobre nu masculino administrado no Wellesley College:

       
    Todo mundo aparecia (nas exposições de Mapplethorpe), nem tanto para paquerar, mas sim para compartilhar da cultura comum - explicou George Stambolian. A gente tinha uma sensação de orgulho coletivo ao contemplar fotografias que ajudavam a definir e comunicar uma percepção da experiência gay.
    (MORRISROE, p.241 em diante)

    Discutir a questão de representação de gênero e identidade sexual na tentativa de avaliar a efetiva colaboração de um artista é um gesto complexo e ousado. A veiculação da obra de Mapplethorpe acabou tendo uma participação especial nesse processo nos anos 70 e 80 ao revelar por exemplo um universo sadomasoquista ou os praticantes de bodybuilding dentro de uma sociedade permeada pela vida em guetos como os EUA.

    No entanto, para a comunidade gay precisamente esta identificação pode ter funcionado antes como ícone do que como uma expressão de um grupo periférico, cuja revelação poderia ser conflituosa à médio prazo com as tentativas de inserção da mesma.

       
    Robert Mapplethorpe has been a society photographer in the largest sense. There are many communities within the collective, just as there are many selves within an individual. So choices always have to be made. In Mapplethorpe´s instance the choices he went with are the subjects which drew him, and this in turn drew the picture we have of Mapplethorpe as an artist and as a man. Like all pictures, it offers many possible interpretations. In 1988 something seems very urgent to me. It has to do with memory, and with freedom. So I chose to emphasize in this essay that part of his work which is a record of our civil battles, and an expression of our civil rights. This is work that is ultimately about no cover up, no censorship, no shameful secrets, no burial of what should be seen and what must be remembered.
    (SISCHY, opus cit., p.88)


    branco

    os anões também nascem pequenos
    (20)

    Não acredito que seja possível discutir a obra de Mapplethorpe mantendo-a à distância da representação de gêneros ou da cultura gay contemporânea Nem é adequado - diria correto - entendê-la como sujeita a manipulações/ingerências de mercado de arte e a mídia cultural, mas sim como resultado de uma nova prática cultural em que essas relações são centrais e não acessórias.

    A obra de Mapplethorpe importa ao campo da cultura ou da arte? Certamente a ambos. Ao primeiro, em maior grau, por suas conexões de representação social e novas práticas de difusão artísticas, cuja análise permitirá definir procedimentos relevantes para a ação de agentes culturais (na imprensa, no ensino e ação cultural institucional em seus programas de divulgação) . Ao segundo, produção que necessitará de longo tempo para uma avaliação justa, pela integração da prática artística a uma tradição (em articulação) da história da fotografia, pela revisão dos gêneros como o nu e por sua colaboração no esforço de inserção da fotografia como uma das práticas à disposição dos artistas visuais e não mais como núcleo autônomo.

       
    Gosto de Mapplethorpe por sua erudita recapitulação da história da arte, suas alusões e corrupção do estilo clássico e renascentista. Como herdeiro do artista gay Tom of Finland, e do fotógrafo alemão Helmut Newton, ele vê o tom duro, militante, escultural da personalidade ocidental, tendendo para o imperialista e o fascista. Une a nítida forma apolínea com o amorfo conteúdo dionisíaco. Em sua celebração da beleza homoerótica, uma das mais antigas e duradouras inspirações da arte ocidental, Mapplethorpe reeduca nosso olho para ver o pênis e o escroto em suas verdadeiras dimensões. Os órgãos genitais masculinos, com exceção de exóticas cenas cômicas de orgia na arte grega, jamais foram tão autenticamente integrados na tradição da grande arte. Aceito Mapplethorpe como pornógrafo, mas para Donatello, Michelangelo e Caravaggio também foram pornógrafos. Não creio que Mapplethorpe tenha produzido uma obra-prima, mas também não o fez um de meus artistas favoritos, Dante Gabriel Rossetti. Acredito que, no vazio geral do atual mundo artístico, as fotos de Robert Mapplethorpe na verdade continuarão vivas, representando com eloqüência a imaginação moderna no fin de siècle.
    (PAGLIA, p.56)


    Ricardo Mendes














    Fontes:


    • Exposição
        Robert Mapplethorpemam-SP04.03 a 27.04.97


    • Palestras
        Germano Celantmam-SP03.03.97
        Annateresa Fabrismam-SP06.03.97
        Eduardo Brandãomam-SP13.03.97
        Renato Mezanmam-SP20.03.97
        Mauro Meichesmam-SP27.03.97



    • Visita guiada
        André Fischermam-SP10.04.97


    • Livros:
      • ARENDT, Hannah. A crise da cultura. In: ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. 2.ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 1979 (p.248-281)
      • BARTHES, Roland. A camara clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
      • CIRLOT, Juan-Eduardo. Diccionario de simbolos. Barcelona: Editorial Labor, 1969.
      • MORRISROE, Patricia. Mapplethorpe: a biography. Rio de Janeiro: Record, 1996. (Contraluz)
      • PAGLIA, Camille. A bela decadência de Robert Mapplethorpe. In: Sexo, arte e cultura americana. São Paulo: Cia das Letras, 1993, p.49-56.


    • Catálogos:
      (em ordem cronológica)
      • Some women. Boston/Toronto/London: Bullfinch Press/Little, Brown & Company, [s.d.].
      • Ten by ten. München: Schirmer/Mosel, 1988.
        (Amsterdam: Stedelijk Museum, 02.1988.
      • MARSHALL, Richard. Robert Mapplethorpe. London: Secker & Warburg, 1988. 216p.
        Whitney Museum of American Art , 28.07 a 23.10.88.
      • CELANT, Germano. Mapplethorpe. Milão: Electa, 1992.
        Mostra itinerante: 02.92 a 02.96
      • Robert Mapplethorpe. São Paulo: MAM/ALUMNI, mar.1997.


    • Artigos:
      • Mapplethorpe. AMERICAN PHOTOGRAPHER, 20 (1): 44-55, jan.1988.
        Reportagem de Carol Squeers e Steven Koch, editada por Allan Ripp.
      • CORTAZZO, Uruguay. Contra la trascendencia. JAQUE, Montevideo, (--): 16, 06.05.87.
      • ___. Pero... ¡¿y existe una cultura gay?!. JAQUE, Montevideo, (135): 24, [1987].
      • MARÍAS, Javier. A onipresença do horror. FSP, 18.08.96, mais!, p.5-6.
































































    Página criada por Ricardo Mendes
    06.08.1997 - criação
    06.03.2006 - atualização