No dia em que o mundo saboreou o fructo prodigioso da maravilhosa invenção da photographia, a independencia e o prestigio do astro que nos illumina aniquilaram-se completamente.

A aurora já não póde, sem manchar as roseas vestes, descerrar ao alvorecer o cortinado do leito onde repousa o rei da luz, que se esqueceu dos suaves perfumes da risonha madrugada, para se entregar nos braços libidinosos dessa facil deidade que se chama 'Industria'. Os astros que povoam o firmamento teem forçosamente de eleger outro monarcha para os reger; e o sufragio universal, consultado nas alturas, decidirá em breve a que fronte compete cingir a corôa posta a concurso nos espaços.

O sol abdicou; hoje reina só interinamente. Levado por seductoras promessas, esqueceu se do seu throno glorioso, e em fraterna associação estabeleceu 'atelier' na face da terra, offerecendo, na secção dos 'annuncios', uma nova ordem de serviços à humanidade.

O sol de Jesué está reduzido a uma entidade puramente industrial; todavia, o 'artigo de fundo', para fazer triumphar a justiça e ao mesmo tempo adormecer os leitores, vê se obrigado a proclamar que o reinado do rei dos astros fôra um moralíssimo e salutar exemplo para os monarchas do mundo em que vivemos.

O sol timbrou sempre no constitucionalismo: a imparcialidade foi a sua divisa constante. Os benéficos raios de luz não escolheram nunca o palacio do grande para o illuminarem de preferencia á cabana do pobre.

Á tardinha, á despedida do dia, n'essa hora melancolica e saudosa, o mesmo reflexo veiu sempre dizer adeus, quer á rôlasinha que na espessa folhagem do arvoredo arrulhava ternuras, quer ao agiota velhaco, que de olhos fitos no firmamento e pitada engatilhada aos dedos, pedia ao céu inspiração para esfolar os devedores com mais limpeza. O sol acariciou e fecundou igualmente todas as flores e todos os fructos, que se ostentavam nos limites do seu imperio: desde a modesta flor da solidão, que de continuo acalenta no calix pudibundo uma perola da aurora, até ao gracioso e rosado pomo, que de tarde, ao sopro da viração, se balouça na haste da romanzeira de Granada.

Entretanto é forçoso confessar que ao rei da luz não podia ser grata a monotona e importuna pontualidade imposta pelo kalendario. Foi por isso que elle acceitou de bom grado a collaboração artistica a que na terra o chamava a portentosa invenção com que a humanidade deveria transpôr em effigie as testeiras da immortalidade.

A photographia era uma necessidade social. Era forçoso que se inventasse; e a sciencia pronunciando o seu 'fiat', o sol - que da melopéa d'essa magica e solemnissima palavra brotou em doces splendores na plenitude dos ceus - não podia recusar o puro hymineu a que o mortal ia dever o passar á posteridade em exemplares de mil e quinhentos réis a dúzia.

A photographia é a descoberta dos tempos modernos que está mais á altura das aspirações do seculo. O homem que se vê photographado, é o homem que se sente transpôr os umbrais do futuro, como o Dante transpunha os porticos do inferno, e que apaga as temerosas palavras escriptas pela mão fatídica do destino na frente da mansão das sombras. É o homem pressentindo como cravadas em si as vistas da posteridade, de?sa (sic) virgem esquiva e seductora que a bem poucos consentia outr'ora o reclinarem-se-lhe nos braços, e a quem já hoje é dado dizer - 'és minha'.

Ficassem muito embora ignorados para sempre a telegraphia electrica, o barco a vapor e os caminhos de ferro. Tudo isso, no seu curso rapido, representa o homem no mar caudaloso da vida, como naufrago desesperado procurando aproveitar-se do mais pequeno vestigio do tempo que passa. A photographia é o homem que permanece; é o futuro posto em bilhetes de visita; é o porvir que se guarda na algibeira do 'frac' ou na gaveta da secretaria. O feitio dos heróes popularisa se em virtude desse invento prodigioso, e um dia a historia, registrando as acções dos grandes homens, dará por fiador á sua palavra a copia exactíssima do benemerito a quem as honras da chronica forem tributadas.

Debaixo ainda de um ponto de vista mais sublime, ou pelo menos mais sentimental, a photographia é a descoberta maravilhosa que nos concede 'semirealisar' na terra, muitas vezes, um ideal que nas horas de saudade e do silencio nós antevemos no céu; ou por outras palavras, que permitte a singela e graciosa visão do ente bem amado, ser por nós guardada em publica fórma na gaveta das camisas.

Esse gracioso milagre da sciencia já estende os seus beneficos resultados a todas as camadas da sociedade, fecundando com as suas profundas raizes o terreno bravio onde a cultura da civilisação custosamente prosperava. Um dia, ao lado de Colombo, o aventuroso descobridor do Novo Mundo, os vindouros hão de reverenciar a physionomia audaciosa do grande homem, que das paragens ignotas e tempestuosas da cosinha, soube com as deliciosas primícias de um salchichão homerico, chamar sobre si as bençãos e as saudações da humanidade absorta.

Os que chegarem amanhã teem forçosamente de saudar emparceirado com o autor das nossas glórias o busto insinuante d'aquelle que, por entre as vagas tormentosas da existência, conseguiu alcançar as quasi inaccessiveis praias da immortalidade, sobraçando como seu unico titulo de gloria um poema de fricassés. A humanidade já não morre. Hoje a morte é uma ficção, uma illusão, uma mentira, um pé, um subterfugio para o epicedio, um pretexto para a estatua. Os vates de cemiterio vão ser abolidos, os cyprestes extinctos, e os gatos pingados passados á classe de entidades mythologicas.

A machina photographica, verdadeira interprete da nova Idéia, veio-nos tornar indissoluveis e completamente iguaes perante a arte, que somente aos felizes da terra concedia outr'ora seus favores. O despotismo do genio, com as suas preferencias odiosas e os seus arroubamentos premeditados, soffreu um revez de que ninguem o póde salvar.

A inspiração está nos paroxismos da morte. Os Raphaeis de hoje contemplando serenos e impassiveis as arrebicadas Fornarinas que se fixam no cliché, e submettendo conscienciosamente as pudibundas Galathéas á operação do banho, obrigam-nos a pensar que não existe já um vestigio sequer d'essa faisca luminosa, que outr'ora crepitava na pallida e abraseada fronte dos eleitos da poesia.

A inspiração exhala o ultimo suspiro, e as modernas vestaes, enlevadas em mysteriosas contemplações, vão deixando extinguir o fogo sagrado, a contento da sociedade, para a qual tem encantos mais pronunciados a chamma celeste que anima a sibilante locomotiva que, rapida como o relampago, sequiosa de espaço, atravessa as campinas e se precipita atravez das montanhas, deixando apóz si, desenrolada e inerme, essa grande hydra que se chama o passado.

Oh! a sublime inspiração! Quem podia tolerar hoje, em plena sociedade livre, esse fructo defeso a grande parte dos mortaes?

O seculo quer uma inspiração commoda, uma inspiração ao alcance de todos, uma inspiração que se estude como se estuda o par de botas. Os privilegios acabaram. Não se admittem filhos prodigos do genio, quando filhos dilectos do creador todos nós somos; e o despotismo é inacceitavel seja qual fôr a fôrma sob que se apresente. Tinha graça se nós, agora que o seculo XIX vae declinando, tolerassemos ainda esses loucos de trumfa desregrada e olhar scintilante, que atravessavam o mundo olhando as turbas sobranceiramente. Pobres visionarios! Absorvidos de continuo na contemplação das plagas ideaes, seriam capazes de preferir à belleza do jogo de fundos o jogo enfadonho das ondas franjadas de espuma, que á noute esmorecem na praia onde as visões indecisas dos sonhos encantados vagueiam de braço dado com diversos sujeitos, que os tontinhos apenas poderiam conhecer...

O que é certo é que a photographia veio prestar relevantes serviços á humanidade e influenciar poderosamente na marcha da civilisação. O serviço publico já hoje offerece ao homem as commodidades da mala do correio, e amanhã o telegrapho devidamente aperfeiçoado, transmitirá, a preços fixos, as feições de um mortal a qualquer ponto do globo.

Consente-se pois ó sol, ó astro benefico, que, inspirado pelo genio máu da ironia, te dirija d'aqui as minhas saudações e os meus respeitos. Illumina-me com um raio d'essa luz cheia de graça, e, se a tua benevolencia o permitte, escuta as derradeiras palavras que hoje te dirijo: - A providencia na sua infinita sabedoria igualou os homens perante a morte e perante a vida eterna; porém, na vida social, foste tu que os nivelaste, ajudando a collocar o busto do cozinheiro na mesma galeria em que figuram os dos grandes homens.





AZEVEDO, G. de. A propósito da photographia. CORREIO PAULISTANO, SP, 21.10.1866, p.2






Abertura



São Paulo,
outubro de 1866



A partir da década de 1860, o assunto fotografia expande suas fronteiras dentro dos jornais, passando a constituir tema de maior interesse, indo além dos anúncios dos estabelecimentos fotográficos.

Este ensaio publicado no Correio Paulistano, em 1866, é provavelmente único em seu perfil nos jornais paulistanos durante o século XIX. Seu autor - G. de Azevedo (do qual nada se sabe) -, registra através do texto uma visão de época bastante expressiva sobre o papel social da fotografia, então um dos mais representativos símbolos de uma modernidade "nascente".

A publicação deste artigo em Páginas Negras procura introduzir ao leitor atual um dos raros textos longos sobre a fotografia e expectativas sobre seu uso. Seu tom, algo otimista, contrasta com o peculiar pano de fundo em que se desenvolve a fotografia no Brasil, sem maiores reações e expressões no campo cultural do período (apesar da ampla difusão da prática) em flagrante oposição ao panorama europeu.


Ricardo Mendes
Este artigo integra o livro Noticiário Geral da Photographia Paulistana: 1839-1900, de Paulo Cezar Alves Goulart e Ricardo Mendes, a partir de uma pesquisa original de Goulart finalizada em 1988, em processo de edição pelo Centro Cultural São Paulo (SMC/PMSP).